
O visitante inesperado

Agatha Christie


com Charles Osborne








Traduo de
FLVIA VILLAS-BOAS




4 EDIO























CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Christie, Agatha, 1890-1976
C479v              O visitante inesperado / Agatha Christie, com a
4a ed.         adaptao de Charles Osborne; traduo de Flvia
Villas-Boas. - 4a ed. - Rio de Janeiro: Record, 2001.

Traduo de: The unexpected guest
ISBN 85-01-05814-9

1. Fico inglesa. I. Osborne, Charles, 1927- II. Villas-Boas, Flvia. III. Ttulo.

CDD-823
00-1164                                                        CDU-820-3


Ttulo original ingls
THE UNEXPECTED GUEST


Copyright  1997 by Agatha Christie Ltd.

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em parte, atravs de quaisquer meios.


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ISBN 85-01-05814-9 

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Contra Capa

Desde a morte de Agatha Christie, em 1976, seus milhes de admiradores em todo o mundo tiveram que se contentar com a releitura de seus livros. Mas o jejum aparentemente 
irreversvel de novos romances da grande dama da fico policial chega ao fim com o lanamento de O visitante inesperado.
Em uma noite enevoada no interior da Inglaterra, sem conseguir ver a estrada, Michael Starkwedder fica preso com seu carro em uma vala.  procura de ajuda, vai 
at uma casa prxima e encontra um cadver em uma cadeira de rodas. Ao lado do corpo, uma bela mulher, com a arma do crime nas mos. Seduzido pela beleza da 
assassina, Starkwedder articula com ela um plano mirabolante para inocent-la. Mas,  medida que novos fatos vo sendo revelados, ele comea a duvidar se tomou 
ou no a deciso certa. Chega, ento, a polcia, que, ao comear a investigao, descobre pistas que levam a um resultado surpreendente.
O Visitante inesperado foi escrito originalmente em 1958 como uma pea de teatro. Charles Osborne, bigrafo de Agatha Christie, encarregou-se da tarefa de transformar 
o texto em romance. Foi extremamente bem-sucedido. O resultado  um livro com o melhor de Agatha Christie. A grande Dama do Mistrio assinaria em baixo.


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Captulo 1
Era pouco antes de meia-noite numa fria noite de novembro. Remoinhos de neblina obscureciam partes da escura estrada rural, estreita e margeada de rvores, no sul
de Gales, no muito longe do Canal de Bristol, de onde uma sirene de nevoeiro ecoava seu som melanclico a cada instante. Podia-se ouvir ocasionalmente o latido
distante de um co, assim como o chamado tristonho de um pssaro noturno. As escassas manses ao longo da estrada, um pouco melhor que uma vereda, ficavam a quase
um quilmetro uma da outra. Num de seus trechos mais escuros, a trilha fazia uma curva, passando por uma bela casa de trs andares que se erguia bem recuada 
em seus jardins espaosos, e era neste ponto que se encontrava um carro, suas rodas da frente presas na vala  margem da estrada. Aps duas ou trs tentativas 
de acelerar para sair da vala, o motorista do automvel deve ter concludo que era intil insistir, e o motor caiu em silncio.
Um ou dois minutos se passaram antes que o motorista sasse do veculo, batendo a porta atrs de si. Era um homem um tanto atarracado, de cabelos cor de areia, 
com cerca de trinta e cinco anos, um ar de quem vive ao ar livre, vestido num terno rstico de tweed e sobretudo preto, ostentando um chapu. Usando uma lanterna 
para iluminar seus passos, comeou a andar com cautela pelo gramado em direo  casa, parando na metade do caminho para examinar a elegante fachada estilo sculo 
dezoito da construo. A casa parecia imersa em total escurido quando se aproximou das portas envidraadas daquele lado em que se achava. Depois de se voltar 
a fim de olhar para trs, na direo do gramado que acabara de atravessar, e da estrada atrs dele, caminhou direto at as portas, passou as mos sobre o vidro 
e espiou para dentro. Incapaz de discernir qualquer movimento, bateu no caixilho. No houve resposta alguma. Aps uma pausa, o homem bateu de novo, muito mais 
alto. Quando se deu conta de que suas batidas no produziriam nenhum efeito, tentou a maaneta. Imediatamente, a porta se abriu e ele tropeou para dentro de 
uma sala que se encontrava s escuras.
Dentro da sala, deteve-se de novo, como que tentando discernir qualquer som ou movimento. Em seguida, chamou com um “ol”.
- Tem algum aqui?
Movimentou a lanterna em torno da sala, que se revelou um gabinete de leitura bem mobiliado, com as paredes forradas de livros. Viu no centro do cmodo um elegante 
homem de meia-idade, sentado numa cadeira de rodas de frente para as portas envidraadas, com uma manta sobre os joelhos. O homem parecia ter adormecido em sua 
cadeira.
- Oh, ol - disse o intruso. - No tive inteno de assust-lo. Lamento muito.  esta maldita neblina. Acabo de sair da estrada com meu carro, ca numa 
vala e no tenho a menor idia de onde estou. Oh, e deixei a porta aberta. Desculpe. - Continuando a manifestar suas desculpas enquanto se movia pela sala, voltou 
s portas envidraadas, fechou-as e cerrou as cortinas. - Devo ter perdido a estrada principal em algum lugar - explicou. - Estou rodando por estas trilhas 
confusas h uma hora ou mais.
No houve resposta.


- Est dormindo? - perguntou o intruso, enquanto encarava o homem na cadeira de rodas outra vez. Ainda sem receber nenhuma resposta, dirigiu a lanterna para 
o rosto do ocupante da cadeira e parou bruscamente. O homem no abriu os olhos nem se moveu. Quando o intruso se inclinou sobre ele, tocando seu ombro como que 
para acord-lo, o corpo do homem tombou de repente, numa posio curvada na cadeira. - Meu Deus! - exclamou, segurando a lanterna. Deteve-se por um momento, 
indeciso quanto ao que fazer em seguida. Ento, lanando o facho de luz por toda a sala, encontrou um interruptor junto a uma porta, e atravessou o aposento 
para lig-lo.
A lmpada se acendeu sobre uma escrivaninha. O intruso pousou a lanterna sobre a mesa e, olhando atentamente para o homem na cadeira de rodas, girou em torno dele. 
Percebendo uma outra porta com um interruptor junto a ela, foi at l e, com um estalo, ligou a chave, desta forma acendendo os abajures sobre duas mesas de apoio 
estrategicamente colocadas nos dois extremos da sala. Em seguida, dando um passo em direo ao homem na cadeira, teve um sobressalto quando subitamente notou, 
pela primeira vez, uma atraente mulher loura, por volta dos trinta anos, usando um vestido de festa e sobrecapa combinando, de p junto a um nicho alinhado com 
livros no lado oposto da sala. Com os braos pendendo frouxamente, ela no se moveu nem falou. Parecia que nem respirando estava. Houve um momento de silncio 
enquanto fitavam um ao outro. Ento o homem falou.
- Ele... ele est morto! - exclamou. 
Completamente sem expresso, a mulher respondeu:
- Est.
- Voc j sabia? - indagou o homem.
- Sabia.
Aproximando-se cautelosamente do corpo na cadeira de rodas, o homem disse:
- Ele levou um tiro. Na cabea. Quem...?
Fez uma pausa enquanto a mulher trazia devagar a mo direita de onde ela estivera escondida pelas dobras do vestido. Em sua mo havia um revlver. O homem prendeu 
o flego bruscamente. Quando ficou claro que ela no o estava ameaando, aproximou-se da mulher e suavemente tirou o revlver de sua mo.
- Voc atirou nele? - perguntou.
- Atirei - replicou a mulher aps uma pausa.
O homem se afastou dela e ps a arma sobre uma mesa junto  cadeira de rodas. Por um momento, ficou de p olhando para o corpo do morto e depois fitou com incerteza 
o resto da sala.
- O telefone fica ali - disse a mulher, com um gesto da cabea em direo  escrivaninha.
- Telefone? - repetiu o homem. Parecia surpreso.
- Se quiser ligar para a polcia - continuou a mulher, ainda falando da mesma maneira distante, sem expresso.
O estranho olhou fixo para ela, sentia-se incapaz de decifr-la. E ento disse:
- Alguns minutos a mais ou a menos no vo fazer diferena. Eles vo ter um bocado de trabalho para chegar at aqui com toda esta neblina, de qualquer jeito. 
Gostaria de saber um pouco mais... - Interrompeu o que estava dizendo e olhou para o cadver. - Quem  ele?
- Meu marido - replicou a mulher. Fez uma pausa e, em seguida, continuou: - Seu nome  Richard Warwick. Sou Laura Warwick.
O homem continuou a fit-la.
- Entendo - murmurou afinal. - No acha melhor... se sentar?
Laura Warwick encaminhou-se lentamente e um tanto vacilante para um sof. Olhando em torno da sala, o homem perguntou:
- Posso lhe preparar uma... bebida... ou alguma coisa? Deve ter sido um choque.
- Atirar em meu marido? - Seu tom demonstrava uma seca ironia.
Aparentando recobrar a postura, o homem tentou igualar a expresso dela.
- Acho que sim. Ou foi apenas uma brincadeira divertida?
- Foi uma brincadeira divertida - repetiu Laura Warwick, inescrutvel, enquanto permanecia sentada no sof. O homem franziu o cenho, parecendo intrigado. - 
Mas eu gostaria... daquela bebida - continuou ela.
O homem tirou o chapu e atirou-o numa poltrona; em seguida, serviu conhaque de uma garrafa de cristal na mesa junto  cadeira de rodas e entregou o copo a ela. 
A mulher bebeu e, aps uma pausa, o homem pediu:
- Agora, digamos que me conte alguma coisa a respeito disso. 
Laura Warwick ergueu os olhos para ele.
- No seria melhor voc ligar para a polcia? - perguntou.
- Tudo a seu tempo. No h nada de mais em ter uma conversinha reconfortante antes, h? - Tirou as luvas, enfiou-as no bolso do sobretudo e passou a desabotoar 
o casaco.
A pose de Laura Warwick comeou a desabar.
- Eu no... - foi dizendo. Fez uma pausa e ento prosseguiu. - Quem  voc? Como veio parar aqui esta noite? - Sem lhe dar tempo para responder, continuou, 
a voz agora quase num grito. - Pelo amor de Deus, diga-me quem  voc!
Captulo 2
-Perfeitamente - replicou o homem. Correu uma das mos pelos cabelos, olhou em torno da sala por um momento como que imaginando onde ou como comear. Ento 
continuou: - Meu nome  Michael Starkwedder. Sei que  um nome fora do comum. - Soletrou-o para ela. - Sou engenheiro. Trabalho para a Anglo-Iraniana e acabo 
de voltar ao pas depois de um perodo no Golfo Prsico.
Fez uma pausa, dando a impresso de estar recordando brevemente o Oriente Mdio, ou talvez tentando decidir em que nvel de detalhes entrar, e encolheu os ombros.
- Estou aqui no Pas de Gales por uns dois dias, visitando antigos pontos de referncia. A famlia de minha me veio desta parte do mundo e pensei que poderia 
comprar uma casinha por aqui.
Sacudiu a cabea, sorrindo.
- As ltimas duas horas... est mais para trs, eu diria... passei irremediavelmente perdido. Dirigindo em crculos por todas as trilhas sinuosas do sul de 
Gales, para acabar numa vala! Neblina densa por toda parte. Achei um porto, tateei o caminho at esta casa, esperando conseguir um telefone ou, talvez, se tivesse 
sorte, uma acomodao para passar a noite. Experimentei a maaneta daquela porta envidraada ali, descobri que no estava trancada e entrei. Depois do que 
encontrei... - Fez um gesto em direo  cadeira de rodas, indicando o corpo inclinado que havia nela.
Laura Warwick levantou a cabea e fitou-o, os olhos sem expresso.
- Voc bateu na janela primeiro... vrias vezes - murmurou.
- , bati. Ningum respondeu. 
Laura prendeu o flego.
- No, eu no respondi. - Sua voz agora era quase um sussurro. 
Starkwedder olhou para ela, tentando decifr-la. Deu um passo em direo ao corpo na cadeira de rodas, depois voltou  mulher no sof. Para incentiv-la a 
falar, repetiu:
- Como eu disse, experimentei a maaneta, a porta no estava trancada e eu entrei.
Laura ficou olhando fixo para seu copo de conhaque. Falava como se estivesse citando algum.
- “A porta se abre e eis que entra o visitante inesperado.” - Estremeceu ligeiramente. - Esse ditado sempre me apavorou quando eu era criana. “O 
visitante inesperado.” - Jogando a cabea para trs, ela ergueu os olhos para sua visita inesperada e exclamou com repentina intensidade: - Oh, por que no 
telefona para a polcia e acaba com isso?
Starkwedder caminhou em direo ao corpo na cadeira.
- Ainda no - disse. - Dentro de instantes, talvez. Pode me dizer por que atirou nele?
A nota de ironia retornou  voz de Laura quando respondeu.
- Posso lhe dar alguns excelentes motivos. Para comear, ele bebia. Bebia demais. Em segundo lugar, era cruel. Insuportavelmente cruel. Eu o odiei durante anos. 
- Percebendo o olhar astucioso que Starkwedder lhe lanou, ela prosseguiu com raiva: - O que espera que eu diga?
- Voc o odiou durante anos? - murmurou Starkwedder como se estivesse falando consigo mesmo. Olhou pensativo para o corpo. - Mas alguma coisa... algo especial... 
aconteceu esta noite, no foi? - perguntou.
- Tm toda razo - replicou Laura, enftica. - Alguma coisa especial de fato aconteceu esta noite. E assim... eu tirei a arma da mesa onde estava, ao lado 
dele, e... e atirei nele. Foi simples. 
Lanou um olhar impaciente para Starkwedder enquanto continuava:
- De que adianta ficar falando sobre isso? No final, voc s vai ter mesmo que ligar para a polcia. No h nenhuma sada. - Sua voz baixou enquanto repetia: 
- Nenhuma sada!
Starkwedder olhou para ela do outro lado da sala. 
- No  to simples quanto voc pensa - observou. 
- Por que no  simples? - perguntou Laura. Sua voz soava exausta.
Aproximando-se dela, Starkwedder falou lenta e decididamente.
- No  to fcil fazer o que est insistindo comigo para fazer - disse ele. - Voc  uma mulher. Uma mulher muito atraente.
Laura ergueu os olhos para ele de repente.
- Isso faz alguma diferena? - perguntou.
A voz de Starkwedder soava quase animada quando replicou:
- Teoricamente,  certo que no. Mas em termos prticos, faz. - Levou seu sobretudo at o nicho, colocou-o sobre a poltrona e retornou para se pr de p 
diante do corpo de Richard Warwick.
- Oh, voc est falando de cavalheirismo - observou Laura com apatia.
- Bem, chame de curiosidade, se preferir - retrucou Starkwedder. - Gostaria de saber mais sobre o que tudo isto quer dizer.
Laura fez uma pausa antes de replicar.
- J lhe contei - foi tudo o que disse.
Starkwedder caminhou devagar em torno da cadeira de rodas que continha o corpo do marido de Laura, como que fascinado por ele.
- Voc me contou os fatos nus e crus - admitiu. - Mas nada mais do que os fatos.
- E lhe dei um excelente motivo - retrucou Laura. - No h mais nada a contar. Em todo caso, por que voc deveria acreditar no que estou lhe contando? Eu 
poderia inventar qualquer histria que quisesse. Voc tem apenas a minha palavra para garantir que Richard era um animal cruel, que bebia e que tornava a vida 
para mim uma desgraa... e que eu o odiava.
- Posso aceitar a ltima declarao sem question-la - disse Starkwedder. - Afinal, h uma certa quantidade de evidncias para sustent-la. - Aproximando-se 
do sof outra vez, baixou os olhos para Laura. - Ao mesmo tempo,  um pouco drstica, no acha? Voc diz que o odiou durante anos. Por que no o deixou? 
Certamente isso teria sido muito mais simples.
A voz de Laura mostrava-se hesitante quando replicou:
- Eu no tenho... no tenho dinheiro algum que me pertena.
- Minha querida mocinha - disse Starkwedder -, se voc pudesse ter comprovado a crueldade, a embriaguez habitual e todo o resto, teria conseguido um divrcio... 
ou a separao... e a voc receberia uma penso alimentcia, ou seja l como chamam isso. - Fez uma pausa, esperando por uma resposta.
Encontrando dificuldade para responder, Laura se levantou e, mantendo-se de costas para ele, foi at a mesa para pousar seu copo.
- Voc tem filhos? - perguntou Starkwedder.
- No... no, graas a Deus - replicou Laura.
- Bem, ento por que no o abandonou? 
Confusa, Laura voltou o rosto para seu inquisidor.
- Bem... - disse ela, afinal - bem, veja, agora eu vou herdar todo o dinheiro dele.
- Ah, no vai, no - informou Starkwedder. - A lei no ir permitir que voc se beneficie do resultado de um crime. - Dando um passo em direo a 
Laura, perguntou: - Ou voc achava que iria...? - Hesitou, para em seguida continuar - O que voc achava?
- No sei o que est querendo dizer - respondeu Laura.
- Voc no  uma mulher burra - explicou Starkwedder, olhando para ela. - Mesmo que herdasse esse dinheiro, no iria lhe servir para muita coisa se ficasse 
presa a vida inteira. - Acomodando-se confortavelmente na poltrona, acrescentou: - Supondo que eu no tivesse vindo bater na porta de vidro bem agora, o que 
voc iria fazer?
- Isso importa?
- Talvez no... mas estou interessado. Qual iria ser a sua histria se eu no tivesse entrado sem pedir licena e apanhado voc com a mo na massa? Iria 
dizer que foi um acidente? Ou suicdio?
- Eu no sei! - exclamou Laura. Estava arrasada. Indo at o sof, sentou-se olhando na direo oposta  de Starkwedder. - No tenho idia - acrescentou. 
- Estou lhe dizendo, eu... eu no tive tempo para pensar.
- No - concordou ele. - No, talvez no... no creio que tenha sido um caso premeditado. Acho que foi um impulso. Na verdade, acho que provavelmente foi 
alguma coisa que seu marido disse. Foi isso?
- No importa, estou lhe dizendo - replicou Laura.
- O que foi que ele disse? - insistiu Starkwedder. - O que foi?
Laura lanou os olhos para ele com firmeza.
- Esta  uma coisa que eu jamais contarei a ningum! - exclamou.
Starkwedder caminhou at o sof e ficou de p atrs dela.
- Voc ser inquirida no tribunal - informou. 
Sua expresso era sombria quando ela replicou:
- Eu no vou responder. Eles no podem me fazer responder.
- Mas seu advogado ter de saber - afirmou Starkwedder. Inclinando-se sobre o sof e olhando para ela com seriedade, continuou: - Isso pode fazer toda 
a diferena.
Laura voltou-se para encar-lo.
- Oh, ser que no percebe?- exclamou. - No compreende? Eu no tenho nenhuma esperana. Estou preparada para o pior.
- O qu? S porque eu entrei por aquela porta? Se eu no tivesse...
- Mas voc entrou! - Laura o interrompeu.
- Sim, entrei - concordou ele. - E conseqentemente voc ficou sem sada.  isso o que voc acha?
Laura no replicou.
- Tome - disse ele enquanto lhe entregava um cigarro e pegava outro para si prprio. - Agora, vamos voltar um pouco. Voc odiou seu marido por um longo tempo 
e hoje  noite ele disse alguma coisa que simplesmente a tirou do srio. Voc agarrou a arma que estava ao lado... - Parou de repente, fitando o revlver 
sobre a mesa. - Por que ele estava sentado aqui com uma arma a seu lado, afinal? No se pode dizer que isso seja uma coisa comum.
- Ah, isso - respondeu Laura. - Ele costumava atirar em gatos.
Starkwedder olhou para ela, surpreso.
- Gatos? - perguntou.
- Oh, acho que terei de dar algumas explicaes - disse Laura com resignao.
Captulo 3
Starkwedder olhou para ela com uma expresso um tanto perplexa. 
- E ento? - instigou.
Laura deu um suspiro profundo. Depois, olhando fixamente  sua frente, comeou a falar:
- Richard foi um caador do que se chama caa grande - explicou. - Foi onde nos conhecemos... no Qunia. Ele era um tipo de pessoa diferente nessa poca. 
Ou talvez suas boas qualidades aparecessem mais, no as ruins. Ele tinha, de fato, boas qualidades, sabe? Generosidade e coragem. Uma coragem superior. Era um 
homem muito atraente para as mulheres.
Ergueu os olhos de repente, parecendo tomar conscincia da presena de Starkwedder pela primeira vez. Olhando de volta para ela, ele acendeu o cigarro dela com 
seu isqueiro, e depois o dele.
- Prossiga - instou com a mulher.
- Ns nos casamos pouco depois de nos conhecermos - continuou Laura. - Ento, dois anos mais tarde, ele sofreu um terrvel acidente... foi massacrado por 
um leo. Teve sorte de escapar com vida, mas se tornou um semi-aleijado desde ento, sem conseguir andar direito. - Recostou-se, aparentemente mais relaxada, 
e Starkwedder transferiu-se para um escabelo, de frente para ela.
Laura deu uma baforada no cigarro e exalou a fumaa.
- Dizem que o infortnio aperfeioa o carter - comentou. - No melhorou o dele. Em vez disso, desenvolveu todos os seus pontos negativos. Retaliao, 
traos de sadismo, beber demais. Ele tornou a vida praticamente impossvel para todos nesta casa, e ns suportvamos porque... ah, voc sabe o que se diz: “Que 
tristeza para o pobre Richard ser um invlido.” Ns no devamos ter tolerado,  claro. Vejo isso agora. Aquilo simplesmente o incentivava a sentir que era 
diferente das outras pessoas e que podia fazer o que quisesse sem ter de prestar contas por isso.
Levantou-se e foi at  mesa junto  poltrona para bater a cinza no cinzeiro.
- Por toda a sua vida - continuou -, atirar foi a coisa que Richard mais gostou de fazer. Assim, quando viemos morar nesta casa, toda noite, depois que as 
outras pessoas tinham ido para a cama, ele ficava sentado aqui - fez um gesto em direo  cadeira de rodas - e Angell, seu... bem, criado pessoal e facttum 
geral, acho que  como poderia ser chamado... Angell trazia o conhaque e uma das armas de Richard e os colocava a seu lado. Em seguida, Richard mandava escancarar 
as portas envidraadas e ficava aqui dentro, olhando para fora, vigiando,  espreita do lampejo dos olhos de um gato, ou de um coelho extraviado, ou de um co, 
se fosse o caso. Claro, no tm aparecido muitos coelhos ultimamente. Esta doena... como  que se chama?... miximatose ou seja l o que for... os est matando. 
Mas ele atirou num bocado de gatos. - Tirou uma tragada do cigarro. - Atirava neles de dia tambm. E em pssaros.
- Os vizinhos nunca se queixaram? - Starkwedder quis saber.
- Ah, claro que sim - replicou Laura quando voltou a se sentar no sof. - Ns s moramos aqui h uns dois anos, sabe. Antes disso, vivamos na costa leste, 
em Norfolk. L, um ou dois animais de estimao foram vtimas de Richard, e tivemos uma poro de queixas. Foi por isso, na verdade, que viemos morar aqui. 
 muito isolada, esta casa. S temos um vizinho em quilmetros  nossa volta. Mas h boa quantidade de esquilos, pssaros e gatos vadios.
Fez uma pausa e em seguida continuou:
- O principal problema em Norfolk foi na verdade uma mulher que veio at  minha casa um dia, recolhendo assinaturas para a festa da aldeia. Richard disparou 
tiros  direita e  esquerda da mulher quando ela estava indo embora, descendo a nossa entrada. Ela pulava como uma lebre, contou ele. Rugia s gargalhadas quando 
nos relatou o que tinha acontecido. Lembro de ouvi-lo dizer que seu traseiro gordo tremelicava como gelatina. Ela foi  polcia e houve uma terrvel confuso.
- Posso imaginar - foi o comentrio seco de Starkwedder.
- Mas Richard conseguiu se safar bem - contou Laura. - Ele tinha porte para todas as suas armas de fogo,  claro, e garantiu  polcia que s as utilizava 
para atirar era coelhos. Invalidou as declaraes da pobre senhorita Butterfield alegando que ela era apenas uma velha solteirona nervosa que imaginou os tiros 
contra ela, coisa que ele jamais teria feito. Richard sempre foi bem-falante. No teve dificuldade para fazer a polcia acreditar nele.
Starkwedder levantou de seu banquinho e foi at o corpo de Richard Warwick.
- Seu marido parece ter tido um senso de humor bastante perverso - observou em tom cido. Baixou os olhos para a mesa junto  cadeira de rodas. - Entendo 
o que quer dizer - continuou ele. - Uma arma a seu lado era a rotina de todas as noites. Mas com certeza ele no poderia esperar atirar em coisa alguma esta 
noite. No com esta neblina.
- Ah, ele sempre mandava pr uma arma ali - replicou Laura. - Toda noite. Era como um brinquedo de criana. Algumas vezes ele atirava na parede, fazendo 
desenhos. Ali, se quiser ver. - Indicou as portas de vidro. - Embaixo,  esquerda, atrs da cortina.
Starkwedder atravessou a sala e levantou a cortina do lado esquerdo, revelando um desenho de buracos de bala no painel.
- Cus, ele gravou suas iniciais na parede. “R.W.”, com buracos de bala. Notvel. - Recolocou a cortina e voltou at Laura. - Devo admitir que isso 
 um belo exemplo de tiro. Huum, . Deve ter sido bem assustador viver com ele.
- Ele era assustador, sim - replicou Laura, enftica. Com veemncia quase histrica, ergueu-se do sof e se aproximou do visitante que no tinha sido convidado. 
- Precisamos continuar falando sem parar sobre isso? - perguntou exasperada. - S faz adiar o que tem de acontecer no final. No se d conta de que voc 
precisa ligar para a polcia? No tem nenhuma opo. No v que seria muito mais bondoso fazer isso agora, j? Ou quer que eu faa?  isso? Tudo bem, eu 
ligo.
Encaminhou-se depressa para o telefone, mas Starkwedder foi at Laura quando estava erguendo o fone e ps a mo sobre a dela.
- Precisamos conversar primeiro - disse-lhe.
- Estamos conversando - retrucou Laura. - E, de qualquer modo, no h nada para conversar.
- Sim, h - insistiu ele. - Sou um tolo, atrevo-me a dizer. Mas temos de encontrar uma sada.
- Uma sada? Para mim? - perguntou Laura. Ela soava incrdula.
- . Para voc. - Deu alguns passos para afastar-se dela e depois voltou-se para encar-la. - Quanta coragem voc tem? - perguntou. - Pode mentir, 
se necessrio... e mentir de maneira convincente?
Laura olhou fixamente para ele.
- Voc  louco - foi tudo o que disse.
- Provavelmente - concordou Starkwedder. 
Ela sacudiu a cabea perplexa.
- Voc no sabe o que est fazendo - explicou.
- Sei muito bem o que estou fazendo - respondeu ele. - Estou me transformando em cmplice, culpado de favorecimento pessoal.
- Mas por qu? - perguntou Laura. - Por qu? 
Starkwedder olhou para ela por um momento antes de responder.
- , por qu? - repetiu. Falando de forma lenta e determinada, disse: - Pela simples razo, eu acho, de que voc  uma mulher muito atraente, e eu no 
gosto de pensar em voc trancada na priso pelos melhores anos de sua vida. Isso  to horrvel quanto ser pendurada pelo pescoo at morrer, no meu ponto 
de vista. E a situao parece longe de ser promissora para voc. Seu marido era invlido e aleijado. Qualquer prova de que tenha havido provocao repousaria 
inteiramente na sua palavra, uma palavra que voc aparenta estar extremamente indisposta a dar. Portanto, parece altamente improvvel que um jri v absolv-la.
Laura fitou-o com firmeza.
- Voc no me conhece - disse ela. - Tudo o que lhe contei pode ser mentira.
- Pode - concordou Starkwedder, animado. - E talvez eu seja um ingnuo. Mas estou acreditando em voc.
Laura desviou o olhar e depois desabou no banquinho, de costas para ele. Por alguns momentos nada foi dito. Depois, virando-se para encar-lo, seus olhos acesos 
de esperana, fitou-o com ar indagador e em seguida assentiu de maneira quase imperceptvel.
- Posso - respondeu afinal -, posso mentir, se precisar.
- timo! - exclamou Starkwedder com determinao. - Agora, v falando, e fale rpido. - Caminhou at  mesa ao lado da cadeira de rodas, batendo a 
cinza no cinzeiro. - Em primeiro lugar, quem exatamente est aqui nesta casa? Quem mora aqui?
Aps um momento de hesitao, Laura comeou a falar, quase de forma mecnica.
- Tem a me de Richard - contou ela. - E tem Benny... a senhorita Bennet, mas ns a chamamos de Benny... ela  uma espcie de governanta e secretria 
numa pessoa s. Uma ex-enfermeira de hospital. Est aqui h sculos e  dedicada a Richard. E h tambm Angell. J o mencionei, creio.  um enfermeiro-assistente 
e... bem, criado pessoal, suponho. Cuida de Richard de maneira geral.
- H tambm criados que vivem na casa?
- No, no h criados que durmam aqui, somente diaristas. Fez uma pausa. - Oh... eu quase esqueci - continuou. - H Jan,  claro.
- Jan? - perguntou Starkwedder em tom brusco. - Quem  Jan?
Laura devolveu-lhe um olhar constrangido antes de responder. Em seguida, com ar de relutncia, disse:
-  o meio-irmo mais novo de Richard. Ele... ele mora conosco.
Starkwedder caminhou at o banquinho onde ela ainda se achava sentada.
- Agora vamos jogar limpo - insistiu. - O que h a respeito de Jan que voc no quer me contar?
Depois de um momento de hesitao, Laura falou, embora ainda soasse reservada.
- Jan  um amor - disse. - Muito afetuoso e doce. Mas... mas ele no  bem igual s outras pessoas. Quero dizer que ele... ele  o que chamam de retardado.
- Entendo - murmurou Starkwedder com simpatia. - Mas voc gosta dele, no gosta?
-  - admitiu Laura. - Gosto... gosto muito dele. Foi... por isso que, na verdade, no pude ir embora e deixar Richard. Por causa de Jan. Veja bem, pela 
vontade de Richard, ele teria mandado Jan para uma instituio. Um lugar para doentes mentais.
Starkwedder circulou lentamente em torno da cadeira de rodas, baixando os olhos para o corpo de Richard e ponderando. Em seguida, murmurou:
- Entendo. Essa  a ameaa que ele mantinha sobre voc? De que, se voc o deixasse, ele mandaria o rapaz para uma instituio?
-  - replicou Laura. - Se... se eu acreditasse que poderia ganhar o bastante para sustentar Jan e a mim mesma... mas no sei se conseguiria. E, de qualquer 
modo, Richard era o tutor legal do menino, claro.
- Richard era bondoso com ele? - perguntou Starkwedder.
- s vezes - replicou ela.
- E nas outras vezes?
- Ele... ele falava com bastante frequncia em mandar Jan embora - contou Laura. - Ele dizia a Jan: “Eles vo ser bons para voc, garoto. Voc ser 
bem cuidado. E Laura, tenho certeza, ir visit-lo uma ou duas vezes por ano.” Deixava Jan todo agitado, aterrorizado, suplicando, implorando, gaguejando. 
E a Richard se recostava em sua cadeira e rugia s gargalhadas. Jogava a cabea para trs e ria, ria, ria.
- Entendo - disse Starkwedder, observando-a cuidadosamente. Depois de uma pausa, repetiu, pensativo: - Entendo.
Laura se levantou num rompante e foi at  mesa junto  cadeira de rodas a fim de apagar seu cigarro.
- Voc no precisa acreditar em mim! - exclamou. - No precisa acreditar em uma palavra do que eu digo. Por tudo o que sabe, eu bem poderia estar inventando 
essa coisa toda.
- Eu lhe disse que vou arriscar - replicou Starkwedder. - Agora, ento - continuou ele -, e quanto a essa, qual  mesmo o nome, Bennet... Benny, como 
ela ? Esperta? Inteligente?
- Ela  muito eficiente e capaz - assegurou-lhe Laura. 
Starkwedder estalou os dedos.
- Uma coisa acaba de me ocorrer - disse. - Como foi que ningum nesta casa ouviu o tiro hoje  noite?
- Bem, a me de Richard  bastante idosa e est bem surda - retrucou Laura. - O quarto de Benny  no andar de cima do outro lado da casa, e os aposentos 
de Angell ficam bem separados, isolados por uma porta forrada. H o menino Jan,  claro. Ele dorme no cmodo acima deste aqui. Mas vai para a cama cedo e tem 
o sono muito pesado.
- Tudo isso parece extremamente convincente - observou Starkwedder.
Laura pareceu intrigada.
- Mas o que voc est sugerindo? - perguntou ela. - Que poderamos fazer parecer suicdio?
Ele se voltou a fim de olhar para o corpo de novo.
- No - respondeu, sacudindo a cabea. - No h nenhuma esperana de simular suicdio, receio. - Andou at a cadeira de rodas e ficou olhando para 
o cadver de Richard Warwick por um momento, antes de indagar: - Ele era destro, imagino?
- Era - replicou Laura.
- , era o que eu temia. Nesse caso, ele no teria possibilidade de atirar em si mesmo deste ngulo - declarou, apontando para a tmpora esquerda de Warwick. 
- Alm disso, no h nenhuma marca de chamuscado. - Considerou a idia por alguns segundos e depois acrescentou:- No, o revlver deve ter sido disparado 
de uma certa distncia. O suicdio com certeza est fora de questo. - Fez uma nova pausa antes de continuar. - Mas h o acidente,  claro. Afinal, poderia 
ter sido um acidente.
Aps uma longa pausa, comeou a representar o que tinha em mente.
- Agora, digamos por exemplo que eu entrei aqui esta noite. Exatamente como fiz, de fato. Irrompendo por esta porta. - Foi at a porta envidraada e fez 
a mmica de tropear para dentro da sala. - Richard achou que eu fosse um ladro e atirou em mim a esmo. Bem, isso  bastante provvel, por tudo o que voc 
esteve me contando a respeito de suas proezas. Bom, a eu vim at ele - e Starkwedder correu at o corpo na cadeira de rodas - tirei a arma dele...
Laura interrompeu ansiosa.
- E ela disparou na luta...  isso?
-  - concordou Starkwedder, mas imediatamente se corrigiu. - No, isso no vai servir. Como eu digo, a polcia reconheceria de imediato que a arma no 
foi disparada de to perto. - Levou mais alguns minutos para reconsiderar e depois continuou. - Bem, agora, digamos que eu levei o revlver bem para longe 
dele. - Sacudiu a cabea e abanou os braos num gesto de frustrao. - No, isso no est bom. Tendo feito isso, por que diabos eu atiraria nele? No, 
receio que tudo seja muito complicado. - Suspirou: - Tudo bem - concluiu -, vamos deixar como assassinato. Assassinato puro e simples. Mas assassinato 
por algum de fora. Assassinato por uma pessoa ou pessoas desconhecidas. - Atravessou a sala at as portas de vidro, afastou uma cortina e espiou para fora 
como que buscando inspirao.
- Um ladro de verdade, talvez? - sugeriu Laura, tentando ajudar.
Starkwedder pensou por um momento e depois disse:
- Bem, suponho que poderia ser um ladro, mas isso parece um pouco falso. - Fez uma pausa e, em seguida, acrescentou: - E quanto a um inimigo? Parece melodramtico, 
talvez, mas pelo que voc me contou sobre seu marido, ele parece ter sido o tipo de pessoa que devia ter inimigos. Estou certo?
- Bem, est - replicou Laura, falando de maneira lenta e insegura. - Suponho que Richard tivesse inimigos, porm...
- No d importncia aos porns por enquanto - interrompeu-a Starkwedder, apagando o cigarro na mesa junto  cadeira de rodas e adiantando-se para apoi-la 
enquanto ela se sentava no sof. - Conte-me tudo o que puder sobre os inimigos de Richard. Nmero Um, suponho, seria a senhorita... voc sabe, a senhorita do 
traseiro tremelicante... a mulher em quem ele atirou a esmo. Mas no presumo que ela seja uma assassina provvel. De qualquer modo, imagino que ainda viva em 
Norfolk, e seria um pouco forado pensar nela tirando um dia de folga em Gales s para vir acabar com ele. Quem mais? - instigou. - Quem mais poderia guardar 
algum rancor contra ele? 
Laura pareceu em dvida. Ergueu-se, perambulou pela sala e comeou a desabotoar sua capa.
- Bem - comeou, com cautela - teve um jardineiro, h coisa de um ano. Richard o despediu e negou-se a lhe dar uma referncia. O homem foi muito agressivo 
por causa disso e fez uma poro de ameaas.
- Quem era ele? - perguntou Starkwedder. - Um sujeito do lugar?
- Era - respondeu Laura. - Ele veio de Llanfechan, a cerca de seis quilmetros. - Tirou o casaco e o estendeu sobre um dos braos do sof.
Starkwedder franziu o cenho.
- No espero grande coisa do seu jardineiro - disse-lhe. - Pode apostar que ele tem um timo libi provando que ficou em casa. E se no tiver um libi, 
ou se for um libi que somente sua esposa possa confirmar ou sustentar, podemos acabar conseguindo condenar o pobre sujeito por algo que ele no fez. No, isso 
no  bom. O que queremos  algum inimigo do passado, cuja pista no seja to fcil de recuperar.
Laura caminhou lentamente pela sala, tentando pensar, enquanto Starkwedder continuava:
- Que tal algum dos tempos em que Richard atirava em tigres e lees? Algum no Qunia, na frica do Sul, ou ndia? Algum lugar em que a polcia no possa 
verificar a pessoa com facilidade.
- Se pelo menos eu pudesse pensar... - disse Laura, desesperando-se. - Se eu conseguisse lembrar. Se eu pudesse recordar algumas das histrias sobre aquele 
tempo que Richard nos contava de vez em quando.
- Pena que a gente no tem nem um bom material de contra-regra  mo - resmungou Starkwedder. - Sabe como , um turbante Sikh negligentemente cado 
sobre a garrafa, ou uma faca Mau Mau, ou uma flecha envenenada. - Apertou as mos contra a testa num gesto de concentrao. - Que diabo - prosseguiu -, 
o que queremos  algum com um ressentimento, algum que tenha sido maltratado por Richard. - Aproximando-se de Laura, instigou-a: - Pense mulher. Pense. 
Pensei
- Eu... eu no consigo pensar - replicou Laura, a voz quase falhando de tanta frustrao.
- Voc me falou sobre o tipo de pessoa que seu marido era. Deve ter havido incidentes, pessoas. Cus, deve ter havido alguma coisa! - exclamou ele.
Laura andava de um lado para o outro da sala, tentando desesperadamente se lembrar.
- Algum que tenha feito ameaas. Ameaas justificveis, talvez - incentivou-a Starkwedder.
Laura interrompeu seus passos e voltou-se para encar-lo.
- Houve... acabo de me lembrar - disse ela. Falava devagar. - Houve um homem cujo filho Richard atropelou.
Captulo 4
Starkwedder olhou fixo para Laura. 
- Richard atropelou uma criana? - perguntou, agitado. - Quando foi isso?
- H cerca de dois anos - contou Laura. - Quando estvamos morando em Norfolk. O pai da criana com certeza fez ameaas na poca.
Starkwedder sentou-se no banquinho.
- Agora, sim, soa como uma possibilidade - disse. - De qualquer modo, conte-me tudo o que conseguir lembrar sobre ele.
Laura pensou por um momento e depois comeou a falar:
- Richard vinha dirigindo na volta de Cromer - disse. - Tinha bebido demais, o que no era, de modo algum, inusitado. Atravessou um pequeno vilarejo a mais 
de noventa quilmetros por hora, aparentemente ziguezagueando um pouco. A criana, um menininho, correu para a estrada vindo da estalagem... Richard o derrubou 
e ele morreu na hora.
- Voc quer dizer - indagou Starkwedder - que seu marido conseguia dirigir um carro, apesar de sua deficincia?
- Sim, ele podia. O carro tinha de ser construdo especialmente, com controles especiais que ele pudesse manejar, mas, sim, ele conseguia dirigir.
- Entendo - disse Starkwedder. - O que aconteceu  criana? Certamente a polcia poderia ter prendido Richard por homicdio culposo?
- Houve um inqurito,  claro - explicou Laura. Uma nota amarga se insinuou em sua voz quando acrescentou: - Richard foi completamente inocentado.
- Houve alguma testemunha? - quis saber Starkwedder.
- Bem - replicou Laura. - Havia o pai da criana. Ele viu tudo acontecer. Mas havia tambm uma enfermeira... enfermeira Warburton... que estava no carro 
com Richard. Ela testemunhou,  claro. E segundo ela, o carro estava a menos de cinquenta quilmetros por hora, e Richard havia tomado apenas um copo de xerez. 
Disse que o acidente tinha sido praticamente inevitvel... o garotinho simplesmente saiu correndo, de repente, direto para a frente do carro. Eles acreditaram 
nela, e no no pai da criana, que disse ter visto o carro sendo dirigido de maneira errtica e a uma velocidade muito alta. Compreendo que o pobre homem se mostrasse... 
mais do que violento ao expressar seus sentimentos. - Laura foi at a poltrona, acrescentando: - Voc v, qualquer um acreditaria na enfermeira Warburton. 
Ela parecia a prpria essncia da honestidade, confiabilidade, exatido, cuidadosa em suas declaraes e tudo o mais.
- Voc mesma no estava no carro? - perguntou Starkwedder.
- No, no estava - replicou Laura. - Eu estava em casa.
- Ento como sabe que a enfermeira sei-l-o-nome-dela no podia estar dizendo a verdade?
- Ah, a coisa toda foi discutida muito abertamente por Richard - respondeu ela, em tom amargo. - Depois que voltaram do inqurito, lembro-me de tudo com 
muita clareza. Ele disse “Bravo, Warby, foi um espetculo esplndido. Voc provavelmente me safou de uma sentena de priso bastante dura.” E ela respondeu: 
“O senhor no merece ter escapado, sr. Warwick. Sabe que estava dirigindo depressa demais. Sinto muita pena por aquela pobre criana.” E a Richard exclamou: 
“Ora, esquea isso! Fiz com que valesse a pena para voc. De qualquer maneira, o que  um pirralho a mais ou a menos neste mundo superpovoado? Ele est muito 
bem fora daqui. Isso no vai estragar o meu sono, eu lhe garanto.”
Starkwedder se levantou do banquinho e, olhando por cima do ombro para o corpo de Richard Warwick, disse em tom cruel:
- Quanto mais fico sabendo a respeito de seu marido, mais disposto me sinto a acreditar que o que aconteceu esta noite foi um homicdio justificvel, e no 
um assassinato. - Aproximando-se de Laura, continuou:- E ento... Este homem cujo filho foi atropelado. O pai do menino. Como  o nome dele?
- Um nome escocs, eu acho - replicou Laura. - Mac... Mac alguma coisa... MacLeod? MacCrae?... No consigo me lembrar.
- Mas voc tem de tentar lembrar - insistiu Starkwedder. - Vamos, voc precisa. Ele ainda est morando em Norfolk?
- No, no - respondeu Laura. - Ele s estava l de visita. A uns parentes de sua mulher, creio. Parece que me lembro de ele ter vindo do Canad.
- Canad...  um bocado longe - observou Starkwedder. - Levaria tempo para ca-lo. Sim - continuou ele, passando para trs do sof -, sim, acho 
que h possibilidades aqui. Mas, pelo amor de Deus, tente lembrar o nome do homem. - Foi at seu casaco na poltrona instalada no recanto, tirou as luvas de um 
bolso e as calou. Em seguida, olhando em volta da sala com ar de quem procura algo, perguntou: - Tem algum jornal por a?
- Jornal? - perguntou Laura, surpresa
- No de hoje - explicou ele. - O de ontem, ou de anteontem, serviria melhor.
Erguendo-se do sof, Laura foi at um guarda-loua atrs da poltrona.
- Tem alguns jornais velhos aqui. Ns os guardamos para acender o fogo - explicou.
Starkwedder juntou-se a ela, abriu a porta do armrio e tirou um jornal. Depois de verificar a data, anunciou:
- Este est timo. Exatamente o que queremos. - Fechou a porta do armrio, levou o jornal para a mesa, e de um escaninho na escrivaninha extraiu um par de 
tesouras.
- O que vai fazer? - quis saber Laura.
- Vamos fabricar algumas provas. - Fez um rudo com as tesouras, demonstrando.
Laura o fitou, perplexa.
- Mas suponha que a polcia consiga encontrar este homem - disse. - O que vai acontecer? 
Starkwedder sorriu exultante para ela.
- Se ele ainda vive no Canad, vai dar um pouco de trabalho - anunciou com ar presunoso. - E quando o acharem, ele sem dvida ter um libi para hoje 
 noite. Estar a alguns milhares de quilmetros daqui deve ser suficientemente satisfatrio. E por essa poca j vai ser um pouco tarde para eles investigarem 
as coisas por aqui. De qualquer jeito,  o melhor que podemos fazer. Isso nos dar tempo para respirar durante os acontecimentos.
Laura parecia preocupada.
- No gosto disso - reclamou. 
Starkwedder devolveu-lhe um olhar algo exasperado.
- Minha querida moa - repreendeu-a -, voc no pode se dar ao luxo de ser seletiva. Mas deve tentar lembrar o nome do homem.
- Eu no consigo, estou lhe dizendo, no consigo - insistiu Laura
- Era MacDougall, talvez? Ou Mackintosh? - sugeriu ele, tentando ajudar.
Laura deu alguns passos para longe dele, pondo as mos sobre os ouvidos.
- Pare - gritou. - Voc s est fazendo piorar. Agora no tenho nem certeza de que fosse Mac alguma coisa.
- Bom, se voc no consegue se lembrar, no consegue e pronto - cedeu Starkwedder. - Vamos ter de nos arrumar sem ele. Voc no se lembra da data, por 
acaso, ou de alguma coisa til desse tipo?
- Ah, posso lhe dizer a data, com certeza - respondeu Laura. - Foi dia 15 de maio.
Surpreso, Starkwedder quis saber:
- Como foi que voc conseguiu se lembrar disso? 
Havia amargura na voz de Laura quando ela replicou:
- Porque aconteceu no meu aniversrio.
- Ah, entendo... sim... bem, isso soluciona um pequeno problema - observou Starkwedder. - E ns tivemos tambm um pouquinho de sorte. Este jornal  datado 
do dia 15. - Recortou cuidadosamente a data do jornal.
Reunindo-se a ele na escrivaninha e olhando por cima de seu ombro, Laura destacou que a data no jornal era 15 de novembro, no de maio.
- Sim - admitiu ele -, mas os nmeros so mais difceis de conseguir. Agora, maio. Maio  uma palavra curta... ah, sim, aqui est um M. Agora, um A, um 
I e um O.
- O que, em nome de Deus, voc est fazendo? - perguntou Laura.
A nica resposta de Starkwedder, enquanto se sentava na cadeira da escrivaninha, foi:
- Tem cola a?
Laura estava prestes a pegar um pote de cola num escaninho, mas ele a deteve.
- No, no toque - instruiu. - No queremos suas impresses digitais nele. - Pegou o vidro de cola com as mos enluvadas e retirou a tampa. - Como 
ser um criminoso numa s aula - continuou. - E, sim, aqui est um bloco de papel branco... do tipo vendido por todas as Ilhas Britnicas. - Tirando um bloco 
do escaninho, passou a colar palavras e letras numa folha de papel de carta. - Agora, observe isto, uma... duas... trs... um pouco complicado com luvas. Mas 
c estamos. “Quinze de maio. Pago na ntegra.” Ora, o “na” caiu. - Colou a palavra de novo. - Agora, assim. O que voc acha?
Arrancou a folha do bloco e mostrou-a a ela; em seguida, foi at o corpo de Richard Warwick em sua cadeira de rodas.
- Vamos enfi-la com todo capricho no bolso do seu palet, desse jeito. - Quando fez isso, deslocou um isqueiro de bolso, que caiu no cho. - Oi, o que 
 isso?
Laura soltou uma exclamao aguda e tentou agarrar o isqueiro, mas Starkwedder j tinha feito isso, e o estava examinando.
- D essa coisa para mim - gritou Laura sem flego. - D para mim!
Parecendo levemente surpreso, Starkwedder lhe entregou o isqueiro.
- ... ele  meu - explicou ela, sem necessidade.
- Tudo bem, ento  o seu isqueiro - concordou ele. - Isso no  motivo para ficar perturbada. - Olhou para ela com curiosidade. - Voc no est 
perdendo a coragem, est?
Ela se afastou dele e caminhou at o sof. Quando fez isso, esfregou o isqueiro na saia como que para remover possveis impresses digitais, tomando o cuidado 
de certificar-se de que Starkwedder no percebera o gesto.
- No,  claro que no estou perdendo a coragem - garantiu.
Tendo se certificado de que a mensagem colada com letras do jornal no bolso da frente de Richard Warwick estava presa com segurana sob a lapela, Starkwedder 
andou at a escrivaninha, reps a tampa no vidro de cola, tirou as luvas, pegou um leno e olhou para Laura.
- E aqui estamos ns!- anunciou. - Prontos para o prximo passo. Onde est aquele copo em que voc estava bebendo agora mesmo?
Laura apanhou o copo na mesa onde o havia depositado. Deixando o isqueiro na mesa, retornou com o copo at Starkwedder. Ele o tirou dela, e estava prestes a limpar 
suas digitais, mas se deteve.
- No - murmurou. - No, isso seria burrice.
- Por qu? - indagou Laura.
- Bem, deveria haver digitais - explicou ele -, tanto no copo como na garrafa. Desse sujeito, o criado pessoal, para comear, e provavelmente do seu marido 
tambm. Nenhuma impresso digital em lugar algum pareceria muito suspeito para a polcia. - Deu um gole no copo que, estava segurando. - Agora preciso pensar 
num jeito de explicar as minhas - acrescentou. - O crime no  fcil, viu?
Com sbito arrebatamento, Laura exclamou:
- Oh, no! No se envolva nisso. Eles poderiam suspeitar de voc.
Com ar divertido, Starkwedder replicou:
- Ora, eu sou um camarada muito respeitvel... acima de qualquer suspeita. Mas, em certo sentido, eu j estou envolvido. Afinal de contas, meu carro est l 
fora, metido na vala. Mas no se preocupe, apenas um pingo de perjrio de um pequeno trabalho de acerto no elemento tempo... isso  o pior que eles tero para 
levantar contra mim. E no levantaro, se voc fizer o seu papel direitinho.
Assustada, Laura sentou-se no banquinho, com as costas para ele. Ele deu a volta para encar-la.
- E ento - perguntou -, est pronta?
- Pronta... para o qu? - indagou Laura.
- Vamos, voc precisa se recompor - instou Starkwedder. 
Parecendo atordoada, ela murmurou:
- Sinto-me... idiota... eu... eu no consigo pensar.
- Voc no tem de pensar - disse-lhe Starkwedder. - Tem apenas de obedecer ordens. Ento, aqui est o plano. Primeiro, voc tem uma fornalha de qualquer 
tipo na casa?
- Uma fornalha? - pensou Laura, para em seguida replicar: - Bem, h a caldeira de gua.
- Est bom. - Foi at  escrivaninha, pegou o jornal e embrulhou as sobras de papel nele. Voltando a Laura, entregou-lhe o pacote. - Agora - instruiu 
-, a primeira coisa que voc tem de fazer  ir  cozinha e pr isto aqui na caldeira. Depois suba, tire suas roupas e meta-se numa camisola... ou num nglig, 
ou no que tiver. - Fez uma pausa. - Tem uma aspirina?
Intrigada, Laura respondeu:
- Sim.
Como que pensando e planejando enquanto falava, Starkwedder continuou:
- Bem, esvazie a garrafa na privada. Depois v at... sua sogra, ou a senhorita... como  mesmo... Bennet?... e diga que est com dor de cabea e precisa 
de uma aspirina. Depois, enquanto voc est com seja l quem for... deixe a porta aberta, a propsito... vocs vo ouvir o tiro.
- Que tiro? - perguntou Laura, olhando fixo para ele. 
Sem responder, Starkwedder atravessou at a mesa junto  cadeira de rodas e pegou a arma.
- Sim, sim - murmurou com ar ausente -, vou me encarregar disso. - Examinou o revlver. - Huum. Me parece estrangeiro... foi um suvenir, no ?
Laura se levantou do banquinho.
- No sei - disse. - Richard tinha vrios tipos de pistolas estrangeiras.
- Gostaria de saber se est registrada - comentou Starkwedder, quase consigo mesmo, ainda segurando a arma.
Laura sentou no sof.
- Richard tinha uma licena... se  assim que vocs chamam a isso... uma autorizao para a sua coleo - explicou ela.
- Sim, suponho que tivesse. Mas isso no significa que todas elas estariam registradas em seu nome. Na prtica, as pessoas com frequncia so bastante descuidadas 
quanto a esse tipo de coisa. Existe algum que provavelmente saiba de maneira definitiva?
- Angell poderia saber - respondeu Laura. - Isso faz diferena?
Starkwedder andou pela sala enquanto respondia.
- Bem, do jeito que estamos construindo isso, o velho MacQualquerCoisa... o pai da criana que Richard atropelou... mais provavelmente irromperia aqui, bufando 
sangue, brados de censura e vingana, com sua prpria arma pronta. Mas se poderia, afinal, imaginar uma argumentao bastante plausvel, ao contrrio. Este 
homem... seja l quem for... irrompe aqui. Richard, apenas semi-acordado, agarra sua arma. O outro sujeito a arranca dele e dispara. Admito que soa um pouco forado, 
mas  o que nos serve. Temos que correr alguns riscos, no h como evitar.
Ps a arma sobre a mesa junto  cadeira de rodas e se aproximou dela.
- Agora - continuou - vamos ver, ns pensamos em tudo? Espero que sim. O fato de ele ter sido baleado vinte e cinco ou vinte minutos antes no estar evidente 
na hora em que a polcia chegar aqui. Dirigir por estas estradas nessa neblina no vai ser nada fcil para eles. - Foi at a cortina da porta envidraada, 
ergueu-a e olhou para os buracos de bala na parede. - “R.W”. Muito bom. Vou tentar acrescentar um ponto final depois do “W”.
Soltando a cortina, voltou.
- Quando ouvir o tiro - instruiu Laura -, o que voc ter de fazer  registrar uma expresso de alarme... e trazer a senhorita Bennett... ou seja l quem 
consiga chamar... at aqui. Sua histria  que voc no sabe de nada. Foi para a cama, acordou com uma violenta dor de cabea, tentou conseguir uma aspirina... 
e isso  tudo o que voc sabei Entendeu?
Laura assentiu.
- timo - disse Starkwedder. - Todo o resto voc deixa comigo. Est se sentindo bem agora?
- Sim, acho - sussurrou Laura.
- Ento v em frente e faa a sua parte - ordenou ele. 
Laura hesitou.
- Voc... voc no devia fazer isso - instou com ele mais uma vez. - No devia. Voc no devia se envolver.
- Agora, chega dessa histria - insistiu Starkwedder. - Todo mundo tem sua prpria forma de... como foi que voc se referiu agora h pouco?... se divertir. 
Voc teve a sua atirando em seu marido. Eu estou tendo a minha agora. Digamos somente que sempre tive um anseio secreto de ver como eu me sairia com uma histria 
de detetive na vida real. - Lanou-lhe um sorriso rpido, tranquilizador. - Agora, pode fazer o que eu lhe disse?
Laura assentiu:
- Posso.
- Certo. Ora, vejo que voc est com um relgio. timo. Que horas so a?
Laura mostrou-lhe o relgio de pulso, e ele acertou o seu pelo dela.
- Pouco menos de dez minutos para a meia-noite - observou. - Vou lhe conceder trs... no, quatro... minutos para ir at a cozinha, jogar esse jornal na 
caldeira, subir as escadas, tirar sua roupa, meter-se numa camisola e ir at a senhorita Bennett, ou quem for. Acha que pode fazer isso, Laura? - Sorriu para 
ela com ar de confiana.
Laura assentiu:
- Ento, agora - continuou -, exatamente s cinco para a meia-noite, voc vai ouvir o tiro. Vai!
Encaminhando-se para a porta, ela se voltou e olhou para ele, insegura de si. Starkwedder cruzou a sala a fim de abrir a porta para ela.
- Voc no vai me decepcionar, vai? - perguntou ele.
- No - replicou Laura debilmente.
- timo.
Laura estava prestes a sair da sala quando Starkwedder percebeu sua capa pousada sobre o brao do sof. Chamando-a de volta, entregou-lhe a capa, sorrindo. Laura 
saiu e ele fechou a porta atrs dela.
Captulo 5
Aps fechar a porta atrs de Laura, Starkwedder deteve-se, exercitando em sua mente o que precisava ser feito. Depois de um momento, olhou para o relgio e 
em seguida tirou um cigarro. Adiantou-se at a mesa junto  poltrona e estava prestes a pegar o isqueiro quando se apercebeu de uma fotografia de Laura em uma 
das prateleiras. Ergueu-a, olhou para ela, sorriu, recolocou-a no lugar e acendeu o cigarro, deixando o isqueiro sobre a mesa. Tirando um leno do bolso, apagou 
quaisquer impresses digitais que pudessem restar nos braos da poltrona e na fotografia, e em seguida empurrou a cadeira de volta  sua posio original. 
Pegou o cigarro de Laura no cinzeiro, depois foi at a mesa ao lado da cadeira de rodas e retirou sua prpria guimba do cinzeiro. Cruzando at a escrivaninha, 
passou a esfregar as impresses digitais que pudesse haver na mesa, reps as tesouras e o bloco e ajeitou o mata-borro. Olhou  sua volta, no cho, em busca 
de algum recorte de papel que pudesse ter se perdido, encontrou um junto  mesa, amarrotou-o bem apertado e o ps no bolso da cala. Esfregou as marcas de digitais 
do interruptor de luz ao lado da porta e na cadeira da escrivaninha, pegou sua lanterna na mesa, foi at as portas envidraadas, puxou ligeiramente a cortina e 
acendeu o facho, atravs da janela, sobre a trilha l fora.
- Dura demais para pegadas - murmurou consigo mesmo. Ps a lanterna sobre a mesa junto  cadeira de rodas e pegou a arma. Certificando-se de que estava devidamente 
carregada, poliu-a das possveis digitais; em seguida, foi at o escabelo e pousou a arma sobre ele. Depois de olhar mais uma vez para o relgio, andou at a 
poltrona no recanto e colocou seu chapu, cachecol e luvas. Com o sobretudo no brao, cruzou a sala at a porta. Estava prestes a apagar as luzes quando se 
lembrou de remover as impresses digitais da placa na porta e das maanetas. Em seguida, apagou as luzes e voltou ao banquinho, vestindo o sobretudo. Pegou a arma, 
e quase ia disparando na parede quando se deu conta de que as iniciais estavam escondidas pela cortina.
- Droga! - resmungou. Pegando depressa a cadeira da escrivaninha, usou-a para manter a cortina afastada. Retornou  sua posio junto ao banquinho, disparou 
a pistola e depois voltou depressa  parede a fim de examinar o resultado. - Nada mau! - congratulou-se.
Quando estava repondo a cadeira da escrivaninha em sua posio adequada, Starkwedder ouviu vozes no corredor. Saiu correndo pelas portas envidraadas, levando 
consigo a arma. Um momento depois reapareceu, acendeu o facho e sumiu de novo.
De vrias partes da casa, quatro pessoas acorreram em direo ao gabinete de leitura. A me de Richard Warwick, uma dama alta e dominadora, estava de camisola. 
Parecia plida e caminhava com o auxlio de uma bengala.
- O que foi isso, Jan? - perguntou ao adolescente de pijama, com o estranho rosto inocente parecido com o de um fauno, que se achava logo atrs dela no patamar. 
- Por que est todo mundo perambulando por a no meio da noite? - exclamou, enquanto a eles se reunia uma mulher de meia-idade, grisalha, usando uma discreta 
camisola de flanela. - Benny - ordenou a senhora  mulher -, diga-me o que est acontecendo.
Laura achava-se logo atrs, e a senhora Warwick continuou:
- Vocs todos perderam o senso? Laura, o que aconteceu? Jan... Jan... algum pode me dizer o que est se passando nesta casa?
- Aposto que  o Richard - disse o rapaz, que aparentava uns dezenove anos, embora sua voz e modos fossem de uma criana mais nova. - Ele est atirando 
na neblina de novo. - Havia uma nota de petulncia em sua voz quando acrescentou: - Diga a ele que no deve atirar e nos acordar a todos do nosso sono de beleza. 
Eu estava dormindo profundamente, e Benny tambm. No estava Benny? Tenha cuidado, Laura, Richard  perigoso. Ele  perigoso, tenha cuidado, Benny.
- H uma neblina densa l fora - disse Laura, olhando atravs da janela do patamar. - Mal se consegue divisar o caminho. No consigo imaginar em que ele 
esteja atirando com esta nvoa.  absurdo. Alm disso, achei ter ouvido um grito.
A senhorita Bennett - Benny -, uma mulher esperta, enrgica, que se parecia com a ex-enfermeira de hospital que de fato era, falou num tom algo intrometido:
- Realmente no consigo ver por que voc est to perturbada, Laura.  apenas Richard se divertindo como de costume. Mas eu no ouvi tiro nenhum. Tenho certeza 
de que no h nada de errado. Acho que est imaginando coisas. Mas Richard com certeza  muito egosta e vou dizer isso a ele. Richard - chamou ao entrar 
no gabinete -, francamente, isso no tem cabimento a esta hora da noite. Voc nos assustou... Richard!
Laura, vestindo camisola, acompanhou a senhorita Bennett para dentro da sala. Enquanto acendia as luzes e se encaminhava para o sof, o menino Jan a seguia. Ele 
olhou para a senhorita Bennett, que se achava de p, fitando Richard Warwick em sua cadeira de rodas.
- O que  isso, Benny? - perguntou Jan. - O que aconteceu?
-  Richard - respondeu a senhorita Bennett, com a voz estranhamente calma. - Ele se matou.
- Olha - gritou o jovem Jan, agitado, apontando para mesa. - O revlver de Richard sumiu!
Uma voz vinda de fora, no jardim, chamou:
- O que est havendo a dentro? Tem alguma coisa errada? Olhando pela pequena janela do recanto, Jan exclamou bem alto:
- Ouam! Tem algum l fora!
- L fora? - indagou a senhorita Bennett. - Quem? - Voltou-se para as portas envidraadas e estava prestes a afastar a cortina quando Starkwedder apareceu 
de repente. A senhorita Bennett recuou alarmada, enquanto Starkwedder se adiantava, indagando em tom de urgncia:
- O que aconteceu aqui? Qual  o problema? - Seu olhar caiu sobre Richard Warwick na cadeira de rodas. - Esse homem est morto! - exclamou. - A tiros. 
- Olhou em torno da sala com ar de suspeita, analisando cada um dos presentes.
- Quem  voc? - perguntou a senhorita Bennett. - De onde vem?
- Acabo de cair com meu carro numa vala - replicou Starkwedder. - Estou perdido h horas. Encontrei uns portes e subi at  casa a fim de tentar conseguir 
algum auxlio e telefonar. Ouvi um tiro, algum passou correndo pela porta e esbarrou em mim. - Estendendo a arma, Starkwedder acrescentou: - Ele deixou cair 
isto.
- Para onde foi esse homem? - perguntou-lhe a senhorita Bennett.
- Como  que eu poderia saber com esta neblina? - retrucou Starkwedder.
Jan postou-se em frente ao corpo de Richard, fitando-o com expresso agitada.
- Algum atirou em Richard - gritou.
- Parece que foi isso - concordou Starkwedder. - E melhor vocs entrarem em contato com a polcia. - Ps o revlver sobre a mesa ao lado da cadeira de 
rodas, pegou a garrafa e se serviu de conhaque num copo. - Quem  ele?
- Meu marido - disse Laura sem expresso, enquanto ia se sentar no sof.
Starkwedder disse a ela, com preocupao ligeiramente forada:
- Aqui... beba isto. - Laura ergueu os olhos para ele. - Voc teve um choque - acrescentou o homem com nfase. Quando ela pegou o copo, Starkwedder, 
com as costas voltadas para os demais, deu-lhe um malicioso sorriso de conspirao, a fim de chamar a ateno dela para sua soluo do problema das impresses 
digitais. Virando-se, jogou o chapu sobre a poltrona e ento, percebendo de repente que a senhorita Bennett estava prestes a se debruar sobre o corpo de Richard 
Warwick, deu um giro rpido: - No toque em nada, madame - implorou. - Isto parece assassinato e, se for, nada deve ser tocado.
Aprumando-se, a senhorita Bennett afastou-se do corpo na cadeira, parecendo estarrecida.
- Assassinato? - perguntou. - No pode ser assassinato! 
A senhora Warwick, me do morto, tinha dado apenas um passo para dentro do gabinete, permanecendo junto  porta. Agora ela se adiantava, perguntando:
- O que aconteceu?
- Richard foi baleado! Richard foi baleado! - contou Jan a ela. Parecia mais excitado do que preocupado.
- Fique quieto, Jan - ordenou a senhorita Bennett.
- O que foi que eu ouvi o senhor dizer? - perguntou a senhora Warwick calmamente.
- Ele disse... assassinato - explicou Benny, indicando Starkwedder.
- Richard... - sussurrou a senhora Warwick, enquanto Jan se inclinava sobre o corpo, chamando:
- Olhem... olhem... tem alguma coisa no peito dele... um papel... com umas palavras escritas. - Sua mo se estendeu para o papel, mas o rapaz foi detido pelo 
comando de Starkwedder:
- No toque... seja l o que for, no toque. - Em seguida, leu alto, devagar: - “Maio... dia quinze... pago na ntegra”.
- Meu bom Deus! MacGregor - exclamou a senhorita Bennett, dirigindo-se para trs do sof.
Laura se levantou. A senhora Warwick franziu o cenho.
- Est querendo dizer - indagou ela -... aquele homem... o pai... da criana que foi atropelada...?
-  claro, MacGregor - murmurou Laura consigo mesma, enquanto se sentava na poltrona.
Jan foi at o corpo.
- Olhem...  tudo recorte... de jornal - comentou, animado. 
Starkwedder mais uma vez o conteve.
- No, no toque nisso - ordenou. - Tem de ser deixado para a polcia. - Encaminhou-se para o telefone. - Posso...?
- No - respondeu a senhora Warwick com firmeza. - Eu fao isso. - Encarregando-se da situao, e reunindo toda a sua coragem, foi at a escrivaninha 
e comeou a discar. Jan dirigiu-se excitado para o banquinho e ajoelhou-se sobre ele.
- O homem que fugiu... - perguntou  senhorita Bennett. - Acha que ele... ?
- Psiu, Jan - disse a senhorita Bennett com firmeza, enquanto a senhora Warwick falava calmamente, mas com uma voz clara e autoritria, ao telefone. -  
da delegacia de polcia? Aqui  da Casa Llangelert. A casa do senhor Richard Warwick. O senhor Warwick acaba de ser encontrado... morto a tiros.
Continuou falando ao telefone. Sua voz permanecia baixa, mas os outros na sala ouviam atentamente.
- No, ele foi encontrado por um estranho - ouviram-na dizer. - Um homem cujo carro quebrou perto da casa, creio... Sim, vou dizer a ele. Ligarei para a hospedaria. 
Ser que um de seus carros poderia lev-lo at l quando tiverem acabado por aqui?... Muito bem.
Voltando-se para encarar o grupo, a senhora Warwick anunciou: 
- A polcia estar aqui assim que puder, por causa desta neblina. Eles tm dois carros, um dos quais retornar imediatamente para levar este cavalheiro - 
fez um gesto na direo de Starkwedder -  hospedaria no vilarejo. Querem que ele passe a noite aqui e esteja disponvel para falar com a polcia amanh.
- Bem, como no posso mesmo ir embora com meu carro ainda na vala, por mim est tudo bem - concordou Starkwedder.
Enquanto falava, a porta do corredor se abriu, e um homem de cabelos escuros, estatura mediana, por volta dos quarenta e poucos anos entrou na sala, amarrando a 
faixa de seu robe. De repente, deteve-se abruptamente ao lado da porta.
- Algum problema, madame? - indagou, dirigindo-se  senhora Warwick. Ento, olhando por trs dela, viu o corpo de Richard Warwick. - Oh, meu Deus! - exclamou.
- Receio que tenha ocorrido uma tragdia terrvel, Angell - replicou a senhora Warwick. - O senhor Richard foi baleado e a polcia est a caminho. - 
Voltando-se para Starkwedder, disse: - Este  Angell. Ele... ele era o criado pessoal de Richard.
O criado reconheceu a presena de Starkwedder com uma curvatura ligeira, distrada.
- Oh, meu Deus - repetiu, enquanto continuava a fitar o corpo do falecido patro.
Captulo 6
s onze da manh, o gabinete de Richard Warwick parecia um tanto mais acolhedor que na nebulosa noite anterior. Para comear, o sol estava brilhando num dia 
frio, claro e luminoso, e as portas envidraadas achavam-se abertas de par em par. O corpo tinha sido removido durante a noite, e a cadeira de rodas fora empurrada 
para o recanto, seu antigo lugar central na sala agora ocupado pela poltrona. A mesinha havia sido liberada de tudo, a no ser da garrafa e do cinzeiro. Um homem 
jovem, de boa aparncia, por volta dos vinte anos, com cabelo curto e preto, vestido num palet esporte de tweed e calas azul-marinho, estava sentado na cadeira 
de rodas, lendo um livro de poemas. Aps alguns momentos, se levantou.
- Lindo - disse consigo mesmo. - Apropriado e lindo. - Sua voz era macia e musical, com um pronunciado sotaque gals.
O jovem fechou o livro que estava lendo e recolocou-o na estante. Em seguida, aps observar o aposento por um ou dois minutos, caminhou at a porta de vidro 
aberta e saiu para a varanda. Quase de imediato, um homem de meia-idade, atarracado e com expresso impenetrvel, carregando uma valise, entrou na sala pelo corredor. 
Indo at a poltrona que ficava de frente para a varanda, depositou a valise sobre ela e olhou pela janela.
- Sargento Cadwallader! - chamou em tom estridente. O homem mais jovem voltou para dentro da sala.
- Bom dia, inspetor Thomas - disse. Em seguida, continuou, com uma cadncia alegre na voz: - “Estao de neblinas e sumarentas frutescncias, ntima 
amiga do peito do sol que faz amadurecer.”
O inspetor, que comeara a desabotoar o sobretudo, parou e olhou atentamente para o jovem sargento.
- Como disse? - perguntou, com ntida nota de sarcasmo na voz.
-  de Keats - informou o sargento, bastante satisfeito consigo mesmo.
O inspetor respondeu com um olhar malfico, depois deu de ombros, tirou o casaco, botou-o sobre a cadeira de rodas no recanto e voltou para pegar sua valise.
- Mal d para acreditar neste dia to bonito - prosseguiu o sargento Cadwallader. - Quando a gente pensa na dificuldade terrvel que tivemos para chegar 
aqui ontem  noite. A pior neblina que vi em muitos anos. “A neblina amarela que se apega s vidraas das janelas.”  de T.S. Elliot. - Esperou por uma 
reao do inspetor  sua citao, mas no recebeu nada, e assim continuou: - No  de admirar que os acidentes tenham ocorrido aos montes da maneira como 
foi na estrada de Cardiff.
- Podia ter sido pior - foi o comentrio desinteressado do inspetor.
- No sei, no - disse o sargento, animando-se com o assunto. - Em Porthcawl, houve um desastre bem feio. Um morto e duas crianas gravemente feridas. E 
a me se acabando de chorar no meio da estrada. “A linda infeliz deixada chorando”...
O inspetor o interrompeu:
- Os rapazes das digitais ainda no acabaram o servio? - perguntou.
Subitamente dando-se conta de que era melhor voltar ao trabalho, o sargento Cadwallader replicou:
- Sim, senhor. Estou com tudo pronto aqui para o senhor. - Pegou uma pasta na escrivaninha e abriu-a. O inspetor sentou-se na cadeira da mesa de trabalho e comeou 
a examinar a primeira folha de impresses digitais arquivada na pasta.
- Nenhum problema com o pessoal da casa quanto a tirar suas digitais? - perguntou ao sargento em tom informal.
- Nenhum problema, em absoluto - contou o sargento. - Muito prestativos, eles estavam... ansiosos por ajudar, como se poderia dizer. E isso era mesmo de se 
esperar.
- No sei por qu - observou o inspetor. - Em geral encontro a maior parte das pessoas armando um barulho sem fim. Parecem pensar que suas digitais iro 
parar no arquivo da Galeria dos Marginais. - Tomou flego, esticando os braos, e continuou a analisar as impresses. - Agora, vamos ver. O senhor Warwick... 
este  o falecido. A senhora Laura Warwick, sua esposa. A senhora Warwick mais velha, sua me. O jovem Jan Warwick, a senhorita Bennett e... quem  esse? Angie? 
Ah, Angell. Ora, sim,  o enfermeiro-assistente, no ? E dois outros grupos de digitais. Vejamos agora... Huum. Do lado de fora da porta, na garrafa, no copo 
de conhaque, h impresses sobrepostas s de Richard Warwick, Angell e da senhora Laura Warwick, no isqueiro... e no revlver. Essas so daquele camarada, Michael 
Starkwedder. Ele deu conhaque  senhora Warwick e, claro, foi ele quem trouxe a arma do jardim.
O sargento Cadwallader assentiu lentamente:
- Senhor Starkwedder - rosnou, com a voz carregada de suspeita.
O inspetor, parecendo se divertir, indagou:
- Voc no gosta dele?
- O que ele est fazendo aqui?  isso que eu gostaria de saber - replicou o sargento. - Deixando o carro cair numa vala e indo at a casa onde foi cometido 
um assassinato?
O inspetor voltou-se em sua cadeira a fim de encarar o jovem colega.
- Voc quase caiu com o nosso carro na vala ontem  noite, indo para uma casa onde um assassinato tinha sido cometido. E quanto ao que ele est fazendo aqui, 
ele andou por a... nestes arredores... durante toda a ltima semana, procurando por uma casinha ou um chal para comprar.
O sargento no pareceu convencido e o inspetor voltou  escrivaninha, acrescentando em tom de desagrado:
- Parece que ele teve uma av galesa e costumava vir para c nas frias quando era garoto.
Apaziguado, o sargento cedeu:
- Ah, agora tudo bem, se ele tinha uma av galesa, a questo fica diferente, no ? - Ergueu o brao direito e declamou: - “Uma estrada leva a Londres, 
uma estrada leva a Gales. Minha estrada me leva na direo do mar, para as brancas velas enfunadas.” Ele era um timo poeta, John Masefield. Muito subestimado.
O inspetor abriu a boca para reclamar, mas pensou melhor e, em vez disso, fez uma careta.
- Devemos receber a qualquer momento o relatrio de Abadan sobre Starkwedder - disse ao jovem sargento. - Voc pegou as digitais dele para comparar?
- Mandei Jones dar uma passada na hospedaria onde ele ficou ontem  noite - informou Cadwallader -, mas ele tinha ido at  garagem para ver se conseguia 
resgatar seu carro. Jones ligou para a garagem e falou com ele enquanto estava l. Ele recebeu orientao para se apresentar na delegacia assim que fosse possvel.
- Certo. H um segundo grupo de digitais no identificadas. A marca uniforme de uma mo de homem na mesa junto ao cadver, e impresses borradas tanto fora 
como dentro das portas de vidro.
- Aposto que so de MacGregor - exclamou o sargento, estalando os dedos.
- Si-im. Pode ser - admitiu o inspetor com relutncia. - Mas elas no estavam no revlver. E seria de imaginar que qualquer homem usando um revlver para 
matar algum teria o razovel bom senso de calar luvas, com certeza.
- No sei - observou o sargento. - Um sujeito desequilibrado como este MacGregor, mentalmente perturbado depois da morte do filho, no pensaria nisso.
- Bem, ns devemos conseguir logo uma descrio de MacGregor atravs de Norwich - disse o inspetor.
O sargento se acomodou no banquinho.
-  uma histria triste, de qualquer ngulo que se olhe - sugeriu. - Um homem, sua mulher falecida recentemente, e o nico filho morto por uma direo 
furiosa.
- Se tivesse havido o que voc chama de direo furiosa - corrigiu-o o inspetor com impacincia -, Richard Warwick teria recebido uma sentena de homicdio 
culposo ou, de qualquer modo, uma pena pelo delito de trfego. Para falar a verdade, sua carteira de motorista no foi sequer anotada. - Estendeu a mo para 
pegar uma valise e tirou de l a arma do crime.
- H algumas mentiras assustadoras que se perpetuam s vezes - resmungou o sargento Cadwallader em tom sombrio. - “Senhor, Senhor, como este mundo  dado 
 mentira.” E de Shakespeare.
O inspetor meramente se levantou da escrivaninha e olhou para ele. Depois de um momento, o sargento recuperou a seriedade e ps-se de p.
- A mo de um homem espalmada sobre a mesa - murmurou o inspetor enquanto atravessava at a mesa, levando a arma com ele e baixando os olhos para o tampo. 
- Estranho...
- Talvez tenha havido um visitante na casa - sugeriu o sargento Cadwallader para ajudar.
- Talvez - concordou o inspetor. - Mas pelo que entendi do que disse a senhora Warwick, nenhuma visita esteve na casa ontem. Aquele criado... Angell... pode 
ser capaz de nos contar mais alguma coisa. V busc-lo, sim?
- Sim, senhor - respondeu Cadwallader, saindo. Deixado a ss, o inspetor espalmou sua prpria mo esquerda sobre a mesa e se inclinou para a cadeira como 
se estivesse olhando para um ocupante invisvel. Em seguida, foi at a porta e deu um passo para fora, observando  esquerda e  direita. Examinou a tranca das 
portas de vidro e estava voltando para dentro da sala quando o sargento retornou, trazendo com ele o criado pessoal de Richard Warwick, Angell, que vestia um palet 
de alpaca cinza, camisa branca, gravata preta e calas de listras.
- Voc  Henry Angell? - perguntou-lhe o inspetor.
- Sim, senhor - respondeu Angell.
- Sente-se aqui, sim? - pediu o inspetor. 
Angell foi sentar-se no sof. O inspetor continuou:
- Voc era o enfermeiro-assistente e criado pessoal do senhor Richard Warwick... h quanto tempo?
- H trs anos e meio, senhor - replicou Angell. Seus modos eram corretos, mas havia uma expresso evasiva em seus olhos.
- Gostava do emprego?
- Eu o achava bastante satisfatrio, senhor.
- Como era trabalhar para o senhor Warwick?.
- Bem, ele era difcil.
- Mas havia vantagens, no ?
- Sim, senhor - admitiu Angell. - Eu era extremamente bem pago.
- E isso compensava as outras desvantagens, no  mesmo? - persistiu o inspetor.
- Sim, senhor. Estou tentando guardar algum dinheiro.
O inspetor se sentou na poltrona, colocando a arma na mesa a seu lado.
- O que fazia antes de vir para esse emprego? - perguntou a Angell.
- O mesmo tipo de trabalho, senhor. Posso lhe mostrar minhas referncias - replicou o criado. - Sempre trabalhei bem em meus empregos, espero. Tive alguns 
patres... ou pacientes, na verdade... bastante difceis. Sir James Walliston, por exemplo. Ele agora  paciente voluntrio numa instituio para doentes mentais. 
Uma pessoa muito difcil, senhor. - Baixou ligeiramente a voz antes de acrescentar: - Drogas!
- Decerto - disse o inspetor. - No havia nada dessa questo de drogas com o senhor Warwick, suponho?
- No, senhor. Conhaque era ao que o senhor Warwick gostava de recorrer.
- Bebia um bocado, no ? - indagou o inspetor.
- Sim, senhor - replicou Angell. - Ele bebia pesado, mas no era um alcolatra, se  que me entende. Nunca demonstrou nenhum efeito inconveniente.
O inspetor fez uma pausa antes de perguntar:
- Agora, do que se trata toda essa histria envolvendo armas, revlveres e... atirar em animais?
- Bem, isso era seu hobby, senhor - contou Angell. - O que chamamos em nossa profisso de uma compensao. Ele tinha sido um caador de grande envergadura 
em seus bons tempos, pelo que soube. Um belo arsenalzinho ele tem l em seu quarto. - Indicou com a cabea, por cima do ombro, um quarto em algum outro lugar 
da casa. - Rifles, espingardas de caa, de ar comprimido, pistolas e revlveres.
- Entendo - disse o inspetor. - Bem, agora d s uma olhada nesta arma aqui.
Angell se levantou e caminhou at a mesa; depois, hesitou.
- Tudo bem - tranquilizou-o o inspetor -, no precisa se dar ao trabalho de manej-la.
Angell pegou a arma, com cautela.
- Voc a reconhece? - perguntou o inspetor.
-  difcil dizer, senhor - replicou o criado. - Parece ser uma das que pertenciam ao senhor Warwick, mas eu realmente no conheo grande coisa sobre armas 
de fogo. No posso dizer ao certo qual arma ele tinha na mesa a seu lado ontem  noite.
- Ele ficava com a mesma arma todas as noites? - perguntou o inspetor.
- Ah, no, ele tinha suas manias, senhor - contou Angell. - Vivia usando uma diferente a cada dia. - O criado devolveu a arma ao inspetor, que a pegou.
- De que adiantava ele ter uma arma ontem  noite, com toda aquela neblina? - inquiriu o inspetor.
- Era apenas um hbito, senhor - replicou Angell. - Estava acostumado com isso, pode-se dizer.
- Tudo bem. Sente-se de novo, sim?
Angell sentou-se outra vez numa ponta do sof. O inspetor examinou o cano da arma antes de perguntar:
- Quando viu o senhor Warwick pela ltima vez?
- Cerca de quinze para as dez ontem  noite, senhor - contou-lhe Angell. - Ele tinha uma garrafa de conhaque e um copo a seu lado, e a pistola que havia escolhido. 
Arrumei a manta para ele e desejei-lhe boa-noite.
- Ele nunca ia para a cama? - quis saber o inspetor.
- No, senhor - replicou o criado. - Pelo menos, no no sentido habitual do termo. Sempre dormia em sua cadeira. s seis da manh eu lhe trazia ch, depois 
o empurrava at o quarto, que tinha banheiro prprio, onde ele se banhava, barbeava, e assim por diante, e ento ele em geral dormia at a hora do almoo. Entendo 
que ele sofria de insnia  noite e, assim, preferia permanecer em sua cadeira nessas horas. Era um cavalheiro bastante excntrico.
- E as portas estavam fechadas quando o deixou?
- Sim, senhor - respondeu Angell. - Havia um bocado de neblina por a ontem  noite, e eu no a queria se infiltrando pela casa.
- Tudo bem. A porta estava fechada. Foi trancada?
- No, senhor. Aquela porta nunca fica trancada.
- Ento ele podia abrir se quisesse?
- Ah, sim, senhor. Ele tinha sua cadeira de rodas, entenda. Podia ir com ela at a porta e abri-la se a noite clareasse.
- Entendo. - O inspetor pensou por um momento e ento perguntou: - Voc no ouviu um tiro ontem  noite? 
- No, senhor - replicou Angell. 
O inspetor atravessou a sala at o sof e baixou os olhos para Angell.
- Isso no  um tanto extraordinrio? - perguntou.
- No. Na verdade, no, senhor - foi a resposta. - Veja o senhor, meu quarto fica a uma certa distncia. Numa galeria e depois de uma porta forrada do outro 
lado da casa.
- No era um tanto esquisito, no caso de seu patro querer cham-lo?
- Ah, no, senhor - explicou Angell. - Ele tinha uma campainha que soava no meu quarto.
- Mas ele no tocou a campainha ontem  noite, em momento algum?
- Oh, no, senhor - repetiu Angell. - Se o tivesse feito, eu acordaria na mesma hora. E, se posso diz-lo, uma campainha muito alta, senhor.
O inspetor Thomas inclinou-se para a frente no brao do sof a fim de abordar Angell de outra maneira.
- Voc... - comeou ele numa voz de impacincia controlada, apenas para ser interrompido pelo tilintar estridente do telefone. Esperou que o sargento Cadwallader 
atendesse, mas o subordinado parecia estar sonhando de olhos abertos, com seus lbios se movendo sem emitir nenhum som, talvez imerso em alguma reflexo potica. 
Aps um momento, deu-se conta de que o inspetor estava olhando fixo para ele e de que o telefone tocava sem parar.
- Desculpe, senhor, mas um poema se encontra a caminho - explicou, enquanto se encaminhava para a escrivaninha a fim de atender ao telefone. - Sargento Cadwallader 
falando - disse. Houve uma pausa e em seguida acrescentou - Ah, sim, de fato. - Depois de mais uma pausa, voltou-se para o inspetor. -  a polcia de Norwich, 
senhor.
O inspetor Thomas tomou o telefone de Cadwallader e sentou-se junto  escrivaninha.
-  voc, Edmundson? - perguntou. - Aqui  o Thomas... Entendo, certo... Sim... Calgary, sim... Sim... Sim, a tia, quando ela morreu?... Ah, dois meses 
atrs... Sim, entendo... Nmero 18, rua 34, Calgary. - Olhou com impacincia para Cadwallader e fez um gesto para que ele anotasse o endereo. - Sim... Oh, 
foi isso, ento?... Sim, devagar, por favor. - Mais uma vez, olhou significativamente para o sargento. - Altura mdia - repetiu. - Olhos azuis, cabelos 
pretos e barba... Sim, como voc diz, voc se lembra do caso... Ah, ele fez isso, ?... Tipo do sujeito violento?... Sim... Voc est enviando junto?... Sim... 
Bem, obrigado, Edmundson. Diga-me, o que voc acha, pessoalmente?... Sim, sim, sei o que foi encontrado, mas o que voc acha?... Ah, ele tinha, ?... Uma ou duas 
vezes antes... Sim,  claro, voc fez algumas concesses... Tudo bem. Obrigado.
Reps o fone no gancho e disse para o sargento:
- Bem, j temos alguma informao sobre MacGregor. Parece que, quando sua esposa morreu, ele viajou do Canad de volta  Inglaterra para deixar a criana 
com uma tia de sua mulher que morava em North Walsham, porque acabava de conseguir um emprego no Alasca e no podia levar o menino com ele. Ao que parece, ficou 
dilacerado diante da morte da criana e saiu por a jurando vingana contra Warwick. Isso no  raro depois de um acidente assim. De qualquer modo, ele partiu 
de volta para o Canad. Eles tm seu endereo e vo mandar um telegrama para Calgary. A tia com quem ia deixar a criana morreu h cerca de dois meses. - 
Voltou-se subitamente para Angell. - Voc estava l na poca, suponho, no , Angell? Acidente de carro em North Walsham, atropelando um garoto.
- Oh, sim, senhor - replicou Angell. - Lembro-me disso bastante bem.
O inspetor se levantou da escrivaninha e foi at o criado. Vendo a cadeira da mesa de trabalho vazia, o sargento Caldwallader prontamente aproveitou a oportunidade 
para se sentar.
- O que aconteceu? - perguntou o inspetor a Angell. - Fale-me a respeito do acidente.
- O senhor Warwick estava dirigindo pela rua principal e um garotinho da vila saiu correndo de uma casa - contou Angell. - Ou pode ter sido da estalagem. Acho 
que foi. No havia possibilidade de frear. O senhor Warwick o atropelou antes que pudesse fazer qualquer coisa.
- Ele estava correndo, no ? - perguntou o inspetor.
- Oh, no, senhor. Isso foi levantado com muita clareza no inqurito. O senhor Warwick se achava bem dentro do limite de velocidade.
- Sei que foi isso o que ele disse - comentou o inspetor.
- Era verdade, senhor - insistiu Angell. - A enfermeira Warburton... uma enfermeira que o senhor Warwick empregava na poca... ela tambm estava no carro 
e concordou.
O inspetor caminhou at uma ponta do sof.
- Por acaso ela olhou para o velocmetro na hora? - inquiriu.
- Acredito que a enfermeira Warburton de fato tenha conseguido ver o velocmetro - replicou Angell em tom afvel. - Ela avaliou que estivessem indo entre 
quarenta e cinquenta quilmetros por hora. O senhor Warwick foi completamente inocentado.
- Mas o pai do menino no concordou? - indagou o inspetor.
- Talvez isso seja apenas natural, senhor - foi o comentrio de Angell.
- O senhor Warwick estivera bebendo?
A resposta de Angell foi evasiva. 
- Acredito que ele havia tomado um copo de xerez, senhor. Ele e o inspetor Thomas trocaram olhares. Em seguida, o inspetor cruzou a sala at as portas envidraadas, 
tirando um leno e assoando o nariz.
- Bem, acho que isso basta por agora - disse ao criado. 
Angell se levantou e encaminhou-se para a porta. Aps um momento de hesitao, voltou para dentro da sala.
- Desculpe-me, senhor - disse ele. - Mas o senhor Warwick foi baleado com sua prpria arma?
O inspetor virou-se para ele.
- Isso ainda precisa ser verificado - observou. - Quem quer que o tenha baleado, esbarrou com o senhor Starkwedder, que estava subindo at a casa a fim de 
tentar conseguir auxlio para seu veculo encalhado. No encontro, o homem deixou cair uma arma. O senhor Starkwedder a pegou... esta arma. - Apontou para 
a arma sobre a mesa.
- Entendo, senhor. Obrigado, senhor - disse Angell, enquanto se voltava outra vez para a porta.
- A propsito - acrescentou o inspetor -, algum visitante esteve nesta casa ontem? Na noite de ontem, em particular.
Angell deteve-se apenas por um instante e depois olhou o inspetor com ar evasivo:
- No que eu me lembre, senhor... no momento - retrucou. Saiu da sala, fechando a porta atrs de si.
O inspetor Thomas voltou  escrivaninha.
- Se voc me perguntar - disse calmamente para o sargento -, esse sujeito  asqueroso. Nada em que a gente possa pr a mo, mas no gosto dele.
- Sou da mesma opinio que o senhor, no que diz respeito a isso - replicou Cadwallader. - No  um homem em que eu fosse confiar, e tem mais, eu diria que 
houve alguma coisa de suspeita naquele acidente.
Subitamente se dando conta de que o inspetor achava-se de p diante dele, levantou-se depressa da cadeira. O inspetor pegou as anotaes que Cadwallader estivera 
fazendo e comeou a l-las com ateno.
- Agora eu fico imaginando se Angell sabe alguma coisa que no nos contou sobre ontem  noite - comeou a dizer, ento se interrompeu. - Ei, o que  isto? 
“ nebuloso em novembro, mas raramente em dezembro.” Isso no  Keats, acredito?
- No - disse o sargento Cadwallader com orgulho. -  Cadwallader.
Captulo 7
O inspetor empurrou bruscamente o caderno de Cadwallader de volta, quando a porta se abriu e a senhorita Bennett entrou, fechando-a com cuidado atrs de si.
- Inspetor - disse ela -, a senhora Warwick parece muito ansiosa para v-lo. Ela est um pouco aborrecida. - Acrescentou depressa: - Estou falando 
da senhora Warwick mais velha, me de Richard. Ela no confessa, mas no creio que se ache no melhor de sua sade; assim, por favor, seja gentil com ela. O senhor 
vai v-la agora?
- Oh, com certeza - replicou o inspetor. - Pea-lhe que entre. 
A senhorita Bennett abriu a porta, fez um gesto e a senhora Warwick entrou.
- Est tudo bem, senhora Warwick - tranqilizou-a, a governanta saindo da sala e fechando a porta.
- Bom dia, madame - disse o inspetor.
A senhora Warwick no devolveu o cumprimento e foi diretamente ao ponto:
- Diga-me, inspetor - ordenou -, que progressos o senhor j fez?
-  bastante cedo para dizer, madame - replicou ele -, mas a senhora pode ficar tranquila de que estamos fazendo tudo o que  possvel.
A senhora Warwick sentou-se, encostando a bengala contra o brao do sof.
- Este homem, MacGregor - disse ela. - Ele foi visto andando por aqui? Algum reparou nele?
- Foram feitas indagaes a esse respeito - informou o inspetor. - Mas at agora no houve nenhum registro de um estranho sendo visto na localidade.
- Aquele pobre menininho - continuou a senhora Warwick. - O que Richard atropelou, quero dizer. Suponho que tenha desarranjado a mente do pai. Sei, pelo que 
me contaram, que foi muito violento e agressivo na poca. Talvez isso fosse apenas natural. Mas depois de dois anos! Parece incrvel.
- Sim - concordou o inspetor -, parece muito tempo para esperar.
- Mas ele era um escocs,  claro - recordou a senhora Warwick. - Um MacGregor. Uma gente paciente, obstinada, os escoceses.
- Eles de fato so!l - exclamou o sargento Cadwallader, esquecendo-se de si e pensando alto. - “Existem poucas vises mais impressionantes no mundo do 
que um escocs trabalhando em seu proveito” - continuou ele, mas o inspetor lanou-lhe de imediato um olhar penetrante de desaprovao, que o silenciou.
- Seu filho no teve nenhum aviso preliminar? - perguntou o inspetor Thomas  senhora Warwick. - Nenhuma carta de ameaa? Alguma coisa desse tipo?
- No, estou certa de que no teve - retrucou ela com bastante firmeza. - Richard teria contado. Ele teria rido disso.
- No teria levado a srio de jeito nenhum? - sugeriu o inspetor.
- Richard sempre ria do perigo - disse a senhora Warwick. Parecia orgulhosa do filho.
- Depois do acidente - continuou o inspetor - seu filho ofereceu alguma compensao ao pai da criana?
- Naturalmente - replicou a senhora Warwick. - Richard no era um homem mesquinho. Mas a compensao foi recusada. De forma indignada, eu diria.
- Certamente - murmurou o inspetor.
- Pelo que entendi, a esposa do senhor MacGregor tinha morrido - recordou a senhora Warwick. - O menino era tudo o que ele tinha no mundo. Foi uma tragdia, 
realmente.
- Mas, em sua opinio, no foi culpa de seu filho?
Ela permaneceu em silncio por um instante mais longo antes de replicar:
- Eu o ouvi.
- Talvez no concorde? - persistiu o inspetor.
A senhora Warwick virou para o outro lado no sof, embaraada, mexendo com os dedos numa almofada.
- Richard bebia demais - disse, afinal. - E  claro que tinha bebido naquele dia.
- Um clice de xerez? - instigou o inspetor.
- Um clice de xerez! - Repetiu a senhora Warwick com um riso amargo. - Ele tinha bebido muito. Ele de fato bebia... muito. Aquela garrafa de cristal ali... 
- Indicou a garrafa na mesa prxima  poltrona junto s portas de vidro. - Aquela garrafa era cheia todas as noites e encontrada praticamente vazia de manh.
Sentado no banquinho e de frente para a senhora Warwick, o inspetor lhe disse, calmamente:
- Ento a senhora acha que seu filho foi culpado pelo acidente?
-  claro que ele foi culpado - replicou ela. - Nunca tive a menor dvida.
- Mas ele foi inocentado - lembrou o inspetor. 
A senhora Warwick riu.
- Aquela enfermeira que estava no carro com ele? Aquela tal de Warburton? - sorriu com desdm. - Era uma boba, e dedicada a Richard. Imagino que ele lhe tenha 
pago muito generosamente pelo depoimento, tambm.
- A senhora efetivamente sabe disso? - perguntou o inspetor, com astcia.
O tom da senhora Warwick foi igualmente perspicaz quando ela replicou:
- No sei de coisa alguma, mas chego s minhas prprias concluses.
O inspetor pegou as anotaes do sargento Caldwallader enquanto a senhora Warwick continuava.
- Estou lhe contando tudo isto agora - disse ela - porque o que o senhor quer  a verdade, no ? O senhor quer ter certeza de que h motivao suficiente 
para um assassinato por parte do pai daquele garotinho. Bem, em minha opinio, havia. S que no acho que depois de todo esse tempo... - Sua voz se arrastou 
em direo ao silncio.
O inspetor ergueu os olhos das anotaes que estivera consultando.
- A senhora no ouviu coisa alguma ontem  noite? - perguntou.
- Sou um pouco surda, o senhor sabe - replicou a senhora Warwick depressa. - S soube que havia alguma coisa errada quando ouvi as pessoas falando e passando 
pela minha porta. Desci e o jovem Jan disse: “Richard foi baleado. Richard foi baleado.” Pensei a princpio... - Passou a mo sobre os olhos. - Pensei 
que fosse alguma piada.
- Jan  seu filho mais novo? - perguntou o inspetor.
- Ele no  meu filho - replicou a senhora Warwick. O inspetor olhou para ela rapidamente, enquanto a velha dama continuava: - Eu me divorciei de meu marido 
muitos anos atrs. Ele se casou de novo. Jan  o filho do segundo casamento. - Fez uma pausa e depois prosseguiu. - Parece mais complicado do que , na verdade. 
Quando seus dois pais morreram, o menino veio para c. Richard e Laura tinham acabado de se casar na poca. Laura sempre foi muito bondosa com o meio-irmo de 
Richard. Ela foi como uma irm mais velha para ele, realmente.
Deteve-se e o inspetor aproveitou a oportunidade para lev-la a voltar a falar de Richard Warwick.
- Sim, entendo - disse ele -, mas agora, quanto a seu filho Richard...
- Eu amava meu filho, inspetor - disse a senhora Warwick -, mas no era cega para seus defeitos, e eles se deviam, em grande medida, ao acidente que o deixou 
numa cadeira de rodas. Ele fora um homem orgulhoso, um homem que vivia ao ar livre, e ter de levar a vida de um invlido e semi-aleijado era muito tormentoso 
para ele Isso no melhorou em nada, digamos, o seu carter.
- Sim, entendo - observou o inspetor. - A senhora diria que sua vida de casado era feliz?
- No tenho a menor idia. - A senhora Warwick claramente no tinha mais a inteno de dizer coisa alguma sobre o assunto. - H mais alguma coisa que 
deseje saber, inspetor? - perguntou ela.
- No, obrigado, senhora Warwick - replicou o inspetor Thomas. - Mas eu gostaria de falar agora com a senhorita Bennett, se puder.
A senhora Warwick se levantou, e o sargento Cadwallader foi abrir a porta da frente para ela.
- Sim,  claro - respondeu a senhora. - Senhorita Bennett. Benny,  como a chamamos. Ela  a pessoa que mais pode ajud-lo.  to prtica e eficiente...
- Est com os senhores h muito tempo?- indagou o inspetor.
- Ah, sim, h anos e anos. Ela cuidou de Jan quando ele era pequeno, e antes disso ajudou com Richard tambm. Oh, sim, ela tomou conta de todos ns. Uma pessoa 
muito leal, a Benny. - Reconhecendo a presena do sargento junto  porta com um aceno de cabea, ela deixou a sala.
Captulo 8
O sargento Cadwallader fechou a porta e descansou as costas contra ela, olhando para o inspetor. 
- Ento Richard Warwick era um homem dado ao lcool, hein? - comentou. - Sabe, j tinha ouvido isso a respeito dele antes. E todas aquelas pistolas, espingardas 
de ar comprimido e rifles. Um pouco esquisito da cabea, se o senhor quer saber.
- Pode ser - replicou o inspetor Thomas, lacnico.
O telefone tocou. Esperando que o sargento o atendesse, o inspetor olhou significativamente para ele, mas Cadwallader tinha ficado imerso em suas anotaes, 
enquanto caminhava devagar at a poltrona e se sentava, completamente distrado do telefone. Aps um instante, dando-se conta de que a mente do sargento estava 
em outro lugar, sem dvida no processo de compor um poema, o inspetor suspirou, atravessou a sala at a escrivaninha e pegou o fone.
- Al - disse. - Sim, sou eu... Starkwedder, ele chegou? Deu-lhe suas impresses digitais?... Bom... sim.... bem, pea a ele para esperar... sim, estarei 
de volta dentro de meia hora, mais ou menos... sim, quero fazer mais algumas perguntas a ele... Sim, at logo.
Durante o final da conversa ao telefone, a senhorita Bennett havia entrado na sala e estava de p junto  porta. Apercebendo-se da governanta, o sargento Cadwallader 
levantou-se de sua poltrona e assumiu uma posio atrs dela.
- Sim? - disse a senhorita Bennett com uma inflexo interrogativa. Dirigiu-se ao inspetor. - O senhor quer me fazer algumas perguntas? Tenho muita coisa para 
fazer esta manh.
- Sim, senhorita Bennett - replicou o inspetor. - Quero ouvir o seu relato do acidente de carro com a criana em Norfolk.
- O menino MacGregor?
- , o menino MacGregor. A senhora se lembrou do nome dela bem depressa ontem  noite, pelo que eu soube.
A senhorita Bennett voltou-se para fechar a porta atrs de si.
-  - concordou. - Tenho uma memria muito boa para nomes.
- E sem dvida - continuou o inspetor - a ocorrncia deixou alguma impresso sobre a senhora. Mas a senhora mesmo no estava no carro, estava?
A senhorita Bennett sentou-se no sof.
- No, no, eu no estava no carro - explicou. - Era a enfermeira que o senhor Warwick tinha na poca. Uma certa enfermeira Warburton.
- A senhora compareceu ao inqurito? - perguntou o inspetor.
- No - replicou ela. - Mas Richard nos contou tudo a respeito dele quando voltou. Disse que o pai do menino o havia ameaado, afirmara que iria acertar 
as contas com ele. No levamos isso a srio,  claro.
O inspetor Thomas chegou mais perto dela.
- A senhora j havia formado alguma opinio particular quanto ao acidente? - indagou.
- No sei o que est querendo dizer.
O inspetor fitou a senhorita Bennett por um momento e em seguida acrescentou:
- Estou querendo dizer, a senhora acha que aquilo aconteceu porque o senhor Warwick tinha bebido?
Ela fez um gesto de quem estava afastando isso da mente.
- Ah, suponho que a me dele tenha lhe contado isso - sorriu com desdm. - Bem, o senhor no deve se guiar por tudo o que ela diz. Ela tem preconceito contra 
bebida. Seu marido... o pai de Richard... bebia.
- A senhora acha, ento - sugeriu o inspetor -, que o relato de Richard Warwick era verdadeiro, que ele estava dirigindo bem dentro do limite de velocidade 
e que o acidente no poderia ter sido evitado?
- No vejo por que isso no deveria ser verdade - insistiu a senhorita Bennett. - A enfermeira Warburton corroborou o depoimento dele.
- E a palavra dela era de confiana?
Nitidamente desaprovando o que parecia considerar um insulto  sua profisso, a senhorita Bennett disse com aspereza:
- Eu esperaria que sim. Afinal, as pessoas no saem por a contando mentiras... no a respeito daquele tipo de coisa. Ou saem?
O sargento Cadwallader, que estava acompanhando o interrogatrio, os interrompeu neste momento.
- Ah, no saem mesmo, com certeza! - exclamou. - Da maneira como falam algumas vezes, a gente pensa que no apenas elas estavam dentro do limite de velocidade, 
como conseguiram at andar de marcha  r ao mesmo tempo!
Aborrecido com esta nova interrupo, o inspetor voltou-se lentamente e olhou para o sargento. A senhorita Bennett tambm fitou o jovem com alguma surpresa. 
Constrangido, o sargento Cadwallader baixou os olhos para suas anotaes, e o inspetor virou-se outra vez para a senhorita Bennett.
- Ao que estou querendo chegar  o seguinte - explicou-lhe. - Na tristeza e tenso do momento, um homem poderia com facilidade ameaar vingana por um 
acidente que matou seu filho. Mas refletindo, se as coisas foram como o que est declarado, ele certamente teria se dado conta de que o acidente no tinha acontecido 
por culpa de Richard Warwick.
- Ah - comentou a senhorita Bennett. - Sim, entendo o que quer dizer.
O inspetor caminhou devagar, de um lado para o outro da sala, enquanto continuava:
- Se, por outro lado, o carro estivesse sendo dirigido de maneira errtica e em excesso de velocidade... se o carro estivesse, digamos, fora de controle...
- Laura lhe contou isso?- interrompeu-o a senhorita Bennett. 
O inspetor voltou-se a fim de olhar para ela, surpreso diante da meno  esposa do homem assassinado.
- O que a faz pensar que ela me contou? - perguntou ele.
- No sei - replicou a senhorita Bennett. - Estava apenas imaginando. - Parecendo confusa, ela olhou de relance para o relgio de pulso. - Isso  tudo? 
- perguntou. - Estou muito ocupada esta manh.
Caminhou at a porta, abriu-a e estava prestes a sair quando o inspetor disse:
- Gostaria de ter uma palavrinha com o jovem Jan em seguida, se possvel.
A senhorita Bennett voltou-se no umbral.
- Ora, ele est bastante agitado esta manh - respondeu ela, um tanto truculenta. - Eu ficaria realmente muito grata se o senhor no falasse com ele... 
revolvendo essa coisa toda. Acabo de conseguir acalm-lo.
- Lamento, mas receio que devamos fazer algumas perguntas a ele - insistiu o inspetor.
A senhorita Bennett fechou a porta com firmeza e voltou para dentro da sala.
- Por que os senhores no podem primeiro encontrar este homem, MacGregor, e interrog-lo? - sugeriu. - Ele no pode ter ido muito longe.
- Ns vamos encontr-lo. No se preocupe - garantiu o inspetor.
- Espero que encontrem - retorquiu a senhorita Bennett. - Vingana, francamente! Ora, isso no  cristo.
-  claro - concordou o inspetor, acrescentando com ar significativo - em especial quando o acidente no foi culpa do senhor Warwick e no poderia ter 
sido evitado.
A senhorita Bennett devolveu-lhe um olhar penetrante. Houve uma pausa e em seguida o inspetor repetiu:
- Eu gostaria de falar com Jan, por favor.
- No sei se conseguirei localiz-lo - disse a senhorita Bennett. - Ele pode ter sado. - Deixou a sala apressada.
O inspetor olhou para o sargento Cadwallader, fazendo um gesto com a cabea na direo da porta, e o sargento foi atrs dela. No corredor, a senhorita Bennett 
admoestou Cadwallader.
- Vocs no devem importun-lo - disse. Voltou para dentro do gabinete. - O senhor no pode afligir o menino - ordenou ao inspetor. - Ele  muito 
facilmente... perturbvel. Fica agitado, temperamental.
O inspetor fitou-a silenciosamente por um momento e em seguida perguntou:
- Ele chega a ser violento?
- No,  claro que no.  um menino muito doce, muito gentil. Dcil, realmente. Eu queria dizer simplesmente que o senhor pode perturb-lo. Isso no  
bom para crianas, coisas como essa, assassinato. E isso  o que ele , na verdade. Uma criana.
O inspetor sentou-se na cadeira da escrivaninha.
- No h com o que se preocupar, senhorita Bennett, posso lhe garantir - disse a ela. - Ns entendemos bem a situao.
Captulo 9
Neste exato momento, o sargento Cadwallader fez entrar Jan, que correu at o inspetor. 
- O senhor quer a mim?- gritou com excitao. - J o pegou? Tinha sangue nas roupas dele?
- Agora, Jan - advertiu-o a senhorita Bennett -, voc deve se comportar. Basta responder a qualquer pergunta que o cavalheiro lhe fizer.
Jan voltou-se com ar alegre para a senhorita Bennett e depois olhou de volta para o inspetor.
- Ah, claro, vou responder - prometeu. - Mas no posso fazer pergunta nenhuma?
-  claro que voc pode fazer perguntas - assegurou-lhe o inspetor com bondade.
A senhorita Bennett sentou-se no sof.
- Vou aguardar enquanto o senhor conversa com ele - afirmou. 
O inspetor levantou-se depressa, foi at a porta e abriu-a num gesto convidativo.
- No, obrigado, senhorita Bennett - solicitou com firmeza. - No vamos precisar da senhorita. E no disse que estava muito ocupada esta manh?
- Eu prefiro ficar - insistiu ela.
- Lamento - a voz do inspetor era custica. - Sempre gostamos de falar com uma pessoa de cada vez.
A senhorita Bennett olhou para o inspetor e depois para o sargento Cadwallader. Percebendo que tinha sido derrotada, deu um sorriso malicioso de aborrecimento 
e deixou a sala num movimento arrebatado, o inspetor fechando a porta atrs dela. O sargento se encaminhou para o recanto, preparando-se para fazer mais anotaes, 
enquanto o inspetor Thomas sentava-se no sof.
- Imagino - disse em tom amistoso para Jan - que nunca tenha estado antes em contato prximo com um assassinato, no ?
- No, no estive - replicou Jan, ansioso. -  muito excitante, no ? - Ajoelhou-se no banquinho. - O senhor tem alguma pista... impresses digitais 
ou manchas de sangue, coisas assim?
- Voc parece muito interessado em sangue - observou o inspetor com um sorriso amigvel.
- Ah, eu sou sim - replicou Jan, calma e seriamente. - Gosto de sangue.  uma bela cor, no ? Aquele lindo vermelho brilhante. - Sentou-se tambm no 
sof, rindo com ar nervoso. - Richard atirava numas coisas, sabe, e a elas sangravam.  mesmo muito engraado, no ? Quero dizer,  engraado que Richard, 
que estava sempre atirando nas coisas, tenha ele mesmo levado um tiro. O senhor no acha que isso  engraado?
A voz do inspetor estava calma, sua inflexo bastante seca, quando replicou:
- Suponho que isso tenha seu lado de humor. - Fez uma pausa. - Est muito contrariado pelo fato de seu irmo... seu meio-irmo, quero dizer... ter sido 
morto?
- Contrariado? - Jan pareceu surpreso. - Por Richard estar morto? No, por que deveria estar?
- Bem, achei que talvez fosse... muito afeioado a ele - sugeriu o inspetor.
- Afeioado a ele! - exclamou Jan, com genuna admirao. - Afeioado a Richard? Ah, no, ningum poderia ser afeioado a Richard.
- Suponho que sua esposa gostasse dele, no entanto - instigou o inspetor.
Um olhar de surpresa passou pelo rosto de Jan.
- Laura? - exclamou ele. - No, acho que no. Ela sempre ficava do meu lado.
- Do seu lado? - perguntou o inspetor. - O que isso significa, exatamente?
Jan de repente pareceu assustado.
- .  - quase gritou, apressadamente. - Quando Richard queria me mandar embora.
- Mandar embora? - incitou o inspetor em tom brando.
- Para um daqueles lugares - explicou o jovem. - O senhor sabe, para onde mandam a gente, e a gente fica trancado, e no pode sair. Ele disse que Laura iria 
me visitar, quem sabe, s vezes. - Jan tremeu um pouco, depois se levantou, afastou-se do inspetor e olhou para o outro lado, na direo do sargento Cadwallader. 
- Eu no gostaria de ficar trancado - continuou, a voz agora trmula. - Eu odiaria ser trancafiado.
Ficou de p diante das portas envidraadas, olhando para a varanda l fora.
- Gosto das coisas abertas, sempre - exclamou na direo deles. - Gosto da minha janela aberta, e da minha porta, para que eu tenha a certeza de que posso 
sair. - Voltou para dentro da sala. - Mas agora ningum mais pode me trancar, pode?
- No, meu rapaz - tranquilizou o inspetor. - Eu diria que no.
- Agora no, porque Richard est morto - acrescentou Jan. Por um momento, soou quase presunoso.
O inspetor se levantou e deu a volta no sof.
- Ento Richard queria voc trancado? - perguntou.
- Laura dizia que ele s falava isso para me provocar - contou Jan. - Ela me garantia que era s isso e dizia que estava tudo bem, que enquanto ela estivesse 
aqui iria garantir que eu nunca fosse trancafiado. - Foi se empoleirar em um dos braos da poltrona. - Eu adoro a Laura - continuou, falando numa excitao 
nervosa. - Adoro a Laura demais. Ns nos divertimos muito juntos, sabe. Procuramos por borboletas e ninhos de passarinhos e fazemos brincadeiras e jogamos. 
Besigue. Conhece esse jogo?  esperto. E empreste-ao-vizinho. Ah,  muito divertido fazer as coisas com a Laura.
O inspetor andou at ele a fim de se recostar no outro brao da cadeira. Sua voz tinha um tom bondoso quando perguntou:
- Suponho que no se lembre de nada a respeito deste acidente que aconteceu quando vocs estavam morando em Norfolk, no ? Quando um garotinho foi atropelado.
- Ah, sim, eu me lembro disso - replicou Jan em tom quase alegre. - Richard foi ao julgamento.
- Sim,  isso mesmo. Do que mais voc se lembra? - incentivou-o o inspetor.
- Ns tivemos salmo no almoo daquele dia - respondeu Jan de imediato. - Richard e Warby voltaram juntos. Warby estava um pouco alvoroada, mas Richard 
s ficava rindo.
- Warby? - inquiriu o inspetor. - E a enfermeira Warburton?
- Sim, Warby. Eu no gostava muito dela. Mas Richard estava to contente com ela naquele dia que ficava dizendo: “Foi um belo espetculo, Warby.”
A porta se abriu de repente e Laura Warwick apareceu. O sargento Cadwallader foi at ela e Jan chamou alto:
- Oi, Laura.
- Estou interrompendo? - perguntou Laura ao inspetor.
- No,  claro que no, senhora Warwick - replicou ele. - Sente-se, por obsquio, sim?
Laura se adiantou para dentro da sala e o sargento fechou a porta atrs dela.
- Jan... Jan est...? - comeou Laura. Fez uma pausa.
- Estou s perguntando a ele - explicou o inspetor - se recorda alguma coisa sobre aquele acidente com o menino em Norfolk. O garoto MacGregor.
Laura sentou-se na ponta do sof.
- Voc se lembra, Jan?
-  claro que lembro - retrucou o rapazola, com ansiedade. - Lembro de tudo. - Voltou-se para o inspetor. - Eu lhe contei, no foi? - indagou.
O inspetor no respondeu diretamente a ele. Em vez disso, caminhou devagar at o sof e, dirigindo-se a Laura Warwick, perguntou:
- O que sabe sobre o acidente, senhora Warwick? Ele foi discutido durante o almoo naquele dia, quando seu marido voltou do inqurito?
- No me lembro - replicou Laura de imediato. 
Jan se levantou depressa e caminhou na direo dela.
- Ah, se lembra, sim, Laura - procurou refrescar-lhe a memria. - No se lembra de Richard dizendo que um pirralho a mais ou a menos no mundo no fazia 
diferena nenhuma?
- Por favor... - implorou ela ao inspetor. 
- Est tudo bem, senhora Warwick - garantiu-lhe o inspetor Thomas com suavidade. -  importante, sabe, que cheguemos  verdade sobre aquele acidente. Afinal, 
presume-se que seja o motivo para o que aconteceu aqui ontem  noite. 
- Oh, sim - suspirou ela. - Eu sei, eu sei. 
- Segundo sua sogra - continuou o inspetor -, seu marido tinha bebido naquele dia. 
- Acredito que sim - admitiu Laura. - Isso... isso no me surpreenderia.
O inspetor sentou-se na outra ponta do sof.
- A senhora efetivamente viu ou conheceu este homem, MacGregor? - perguntou a ela.
- No - disse Laura. - No, eu no compareci ao julgamento.
- Ele parece ter se mostrado muito vingativo - comentou o inspetor.
Laura deu um sorriso triste.
- Aquilo deve ter afetado seu crebro, acho - concordou ela. 
Jan, que estava ficando cada vez mais agitado, veio at eles.
- Se eu tivesse um inimigo - exclamou com agressividade -,  isso o que eu faria. Esperaria um bocado de tempo, e depois viria, me esgueirando no escuro com 
minha arma. Ento... - Atirou na poltrona com uma arma imaginria. - Pou, pou, pou.
- Fique quieto, Jan - ordenou Laura, com aspereza. 
Jan de repente pareceu aborrecido.
- Est zangada comigo, Laura? - perguntou a ela em tom infantil.
- No, querido - tranquilizou-o Laura -, no estou zangada. Mas tente no ficar muito agitado.
- Eu no estou agitado - insistiu Jan.
Captulo 10
Ao atravessar o saguo da frente, a senhorita Bennett se deteve para deixar entrar Starkwedder e um oficial de polcia que pareciam ter chegado juntos ao vestbulo.
- Bom dia, senhorita Bennett - cumprimentou Starkwedder. - Estou aqui para ver o inspetor Thomas.
A senhorita Bennett assentiu.
- Bom dia... ah, bom dia, oficial. Eles esto no gabinete, os dois... no sei o que est acontecendo.
- Bom dia, madame - respondeu o oficial de polcia. - Trouxe isto aqui para o inspetor. Talvez o sargento Cadwallader possa peg-las.
- O que  isso? - perguntou Laura, por cima do rudo das vozes l fora.
O inspetor se levantou e encaminhou-se para a porta.
- Parece que o senhor Starkwedder est de volta.
Quando Starkwedder entrou na sala, o sargento Cadwallader saiu para o saguo a fim de se entender com o oficial. Enquanto isso, o jovem Jan afundava na poltrona 
e observava avidamente os procedimentos.
- Olhem aqui! - exclamou Starkwedder quando entrou na sala. - No posso passar o dia inteiro de pernas para cima na delegacia. J dei a vocs minhas impresses 
digitais e depois insisti para que me trouxessem at aqui. Tenho coisas a fazer. Marquei dois compromissos com um corretor de imveis hoje. - De repente percebeu 
a presena de Laura. - Oh... bom dia, senhora Warwick - cumprimentou-a. - Lamento muito pelo que aconteceu.
- Bom dia - replicou Laura, com ar distante. 
O inspetor foi at a mesa junto  poltrona.
- Ontem  noite, senhor Starkwedder, por algum motivo pousou sua mo sobre esta mesa e, subsequentemente, empurrou a janela para abri-la?
Starkwedder reuniu-se a ele junto  mesa.
- No sei - confessou. - Posso ter feito isso.  importante? No consigo me lembrar.
O sargento Cadwallader entrou de volta na sala, carregando uma pasta de arquivo. Aps fechar a porta atrs de si, dirigiu-se ao inspetor.
- Aqui esto as digitais do sr. Starkwedder, senhor - relatou. - O policial as trouxe. E o relatrio da balstica.
- Ah, vamos ver - disse o inspetor. - A bala que matou Richard Warwick definitivamente veio desta arma. Quanto s digitais, bem, logo veremos. - Foi at 
a cadeira junto  escrivaninha, sentou-se e comeou a analisar os documentos, enquanto o sargento se encaminhava para o recanto.
Aps uma pausa, Jan, que estivera olhando atentamente para Starkwedder, perguntou a ele:
- O senhor acaba de chegar de Abadan, no ? Como  Abadan?
-  quente - foi a nica resposta que recebeu de Starkwedder, que se voltou em seguida para Laura. - Como est hoje, senhora Warwick? - perguntou. - 
Sente-se melhor?
- Ah, sim, obrigada - replicou Laura. - Agora j superei o choque.
- Que bom - disse Starkwedder.
O inspetor tinha se levantado e neste momento se aproximava de Starkwedder no sof.
- Suas digitais - anunciou -, esto na porta, na garrafa e no isqueiro. As impresses na mesa no so suas. Formam um conjunto de impresses absolutamente 
sem identificao. - Olhou em volta da sala. - Isso, ento, acerta tudo - continuou. - Como no houve nenhuma visita aqui... - fez uma pausa e olhou 
para Laura - ontem  noite...?
- No - confirmou Laura.
- Ento elas devem ser de MacGregor - continuou o inspetor.
- De MacGregor? - perguntou Starkwedder, olhando para Laura.
- O senhor parece surpreso - disse o inspetor.
- Sim... estou, bastante - admitiu Starkwedder. - Quero dizer, eu pensava que ele tinha usado luvas.
O inspetor assentiu.
- O senhor tem razo - concordou. - Ele manejou o revlver com luvas.
- Houve alguma briga? - indagou Starkwedder, dirigindo sua pergunta a Laura Warwick. - Ou nada se ouviu alm do tiro?
Foi com um certo esforo que Laura replicou:
- Eu... ns... Benny e eu, isto ... ns ouvimos apenas o tiro. Mas, tambm, ns no teramos ouvido nada l de cima.
O sargento Cadwallader estivera olhando intensamente para o jardim l fora atravs de uma janelinha de vidro no recanto. Agora, vendo que algum se aproximava 
atravessando o gramado, caminhou at um dos lados das portas envidraadas. Por entre elas passou um homem elegante, em meados dos trinta anos, com estatura prxima 
da mdia, cabelos louros, olhos azuis e um aspecto um tanto militar. Deteve-se na entrada, parecendo muito preocupado. Jan, o primeiro dos demais na sala a not-lo, 
berrou, num guincho de agitao:
- Julian! Julian!
O recm-chegado olhou para Jan e em seguida voltou-se para Laura Warwick.
- Laura! - exclamou. - Acabo de saber. Sinto... sinto muito, mesmo.
- Bom dia, major Farrar - cumprimentou-o o inspetor Thomas. 
Julian Farrar virou-se para o inspetor.
- Isso  uma coisa extraordinria - comentou. - Pobre Richard.
- Ele estava cado aqui, em sua cadeira de rodas - contou Jan a Farrar, excitado. - Estava todo encolhido. E tinha um pedao de papel no peito dele. Sabe 
o que dizia? Dizia: “Pago na ntegra.”
- Sim. Calma, calma, Jan - murmurou Julian Farrar, dando tapinhas no ombro do rapaz.
- Isso  excitante, no ? - continuou Jan, olhando ansiosamente para ele.
Farrar passou por ele.
- Sim. Sim, claro,  excitante - garantiu a Jan, olhando com ar indagador na direo de Starkwedder enquanto falava.
O inspetor apresentou os dois homens um ao outro.
- Este  o senhor Starkwedder... Major Farrar, que pode ser nosso prximo Membro do Parlamento. Ele est disputando a eleio suplementar.
Starkwedder e Julian Farrar apertaram as mos, murmurando com polidez:
- Como vai?
O inspetor se afastou, fazendo um gesto para o sargento a fim de que este se reunisse a ele. Confabularam, enquanto Starkwedder explicava ao major Farrar:
Ca com meu carro numa vala e estava subindo at a casa para ver se podia telefonar e conseguir algum auxlio. Um homem saiu disparado da casa, quase me derrubando.
- Mas para que lado foi esse homem? - perguntou Farrar.
- No tenho idia - replicou Starkwedder. - Ele desapareceu em meio  nvoa como num truque de mgica. - Virou-se, enquanto Jan, ajoelhando-se na poltrona 
e olhando com expresso de expectativa para Farrar, argumentava:
- Voc disse a Richard que algum ia atirar nele um dia, no foi, Julian?
Houve uma pausa. Todos na sala olharam para Julian Farrar. 
Farrar pensou por um momento. Em seguida:
- Eu disse? No me lembro - respondeu bruscamente.
- Ah, sim, que voc disse - insistiu Jan. - No jantar, certa noite. Sabe, voc e Richard estavam tendo uma espcie de discusso, e voc disse: “Um dia 
desses, Richard, algum vai meter uma bala na sua cabea.”
- Uma profecia notvel - comentou o inspetor.
Julian Farrar encaminhou-se para sentar numa ponta do escabelo.
- Oh, bem - disse ele -, Richard e suas armas eram, com toda franqueza, uma sria inconvenincia, sabe. As pessoas no gostavam disso. Ora, houve aquele 
sujeito... lembra-se, Laura? Seu jardineiro, Griffiths. Voc sabe... aquele que Richard demitiu. Griffiths com certeza afirmou para mim... e em mais de uma ocasio: 
“Um dia desses, olhe s, eu venho com minha arma e dou um tiro no senhor Warwick.”
- Oh, Griffiths no faria uma coisa dessas - exclamou Laura depressa.
Farrar pareceu arrependido.
- No, no,  claro que no - admitiu. - Eu no quis dizer isso. Queria dizer que este era o tipo de coisa que... eer... as pessoas diziam a respeito 
de Richard.
A fim de encobrir seu constrangimento, sacou de uma cigarreira e tirou de l um cigarro.
O inspetor sentou-se na poltrona da escrivaninha, parecendo pensativo. Starkwedder acomodou-se num canto prximo ao nicho, junto de Jan, que o fitava com interesse.
- Quem dera que eu tivesse vindo aqui ontem  noite - anunciou Julian Farrar, sem se dirigir a ningum em particular. - Eu pretendia.
- Mas com aquela neblina terrvel - retrucou Laura calmamente. - No se podia sair com aquele tempo.
- No - replicou Farrar. - Recebi os membros do meu comit para jantar. Quando eles descobriram a neblina baixando, foram para casa bem cedo. Pensei ento 
em vir at aqui para ver vocs, mas decidi no faz-lo. - Procurando nos bolsos, perguntou: - Algum tem um fsforo? Acho que perdi meu isqueiro. Olhou 
 sua volta e de repente se apercebeu do isqueiro na mesa onde Laura o tinha deixado na noite anterior. Levantando-se, foi peg-lo, observado por Starkwedder. 
- Oh, aqui est ele - disse Farrar. - No conseguia imaginar onde o havia deixado.
- Julian... - comeou Laura.
- Sim? - Farrar ofereceu-lhe um cigarro e ela o pegou. - Lamento muitssimo por tudo isso, Laura - disse ele. - Se houver alguma coisa que eu possa fazer... 
- Sua voz se arrastou num tom indeciso.
- Sim. Sim, eu sei - replicou Laura, enquanto Farrar acendia os cigarros dos dois.
Jan falou de repente, dirigindo-se a Starkwedder.
- O senhor sabe atirar, sr. Starkwedder? - perguntou. - Eu sei, sabia? Richard costumava me deixar experimentar, s vezes. Claro, eu no era to bom quanto 
ele.
- Ele deixava, ? - disse Starkwedder, voltando-se para Jan. - Que tipo de arma ele deixava voc usar?
Enquanto Jan prendia a ateno de Starkwedder, Laura aproveitou a oportunidade para falar rapidamente com Julian Farrar.
- Julian, preciso falar com voc. Preciso - murmurou baixinho. 
A voz de Farrar foi igualmente baixa.
- Cuidado - advertiu-a.
- Era uma .22 - Jan estava contando a Starkwedder. - Sou bastante bom em tiro, no sou, Julian? - Foi at Julian Farrar. - Lembra aquela vez em que me 
levou  feira? Eu derrubei duas das garrafas, no foi?
- Derrubou mesmo, meu garoto - assegurou-lhe Farrar. - Voc tem um bom olho, e isso  o que conta. Bom olho para a bola de crquete, tambm. Foi sensacional, 
aquela partida que jogamos no vero passado - acrescentou.
Jan sorriu para ele alegremente e depois sentou-se no banquinho, olhando de frente para o inspetor, que agora estava examinando documentos sobre a escrivaninha. 
Houve uma pausa. Ento Starkwedder, enquanto puxava de um cigarro, perguntou a Laura:
- Importa-se se eu fumar?
-  claro que no - replicou Laura. 
Starkwedder voltou-se para Julian Farrar.
- Posso pedir seu isqueiro emprestado?
- Claro - respondeu Farrar. - Est aqui.
- Ah, que belo isqueiro, este - comentou Starkwedder, acendendo o cigarro.
Laura fez um movimento sbito e depois se conteve.
- Sim - retrucou Farrar em tom displicente. - Funciona melhor que a maioria.
- Bastante... distinto - observou Starkwedder. Lanou um rpido olhar a Laura, e em seguida devolveu o isqueiro a Julian Farrar com uma palavra de agradecimento 
apenas murmurada.
Jan saiu de seu banquinho e postou-se de p atrs da cadeira do inspetor.
- Richard tem muitas armas - confidenciou. - Espingardas de ar comprimido tambm. E tem uma arma que ele costumava usar na frica para abater elefantes. 
O senhor gostaria de v-las? - Apontou numa direo no especfica.
- Tudo bem - concordou o inspetor, erguendo-se. - Voc vai mostr-las para ns. - Sorriu para Jan, acrescentando, de bom humor: - Sabe, voc tem sido 
muito til para ns. Est nos ajudando bastante. Devamos trazer voc para a equipe da polcia.
Pondo uma das mos sobre o ombro do rapaz, guiou-o em direo  porta, que o sargento abriu para os dois passarem.
- No precisamos mant-lo aqui, senhor Starkwedder - avisou o inspetor da porta. - Pode ir cuidar dos seus negcios agora. Basta se manter em contato 
conosco, e isso  tudo.
- Tudo bem - replicou Starkwedder, enquanto Jan, o inspetor e o sargento saam da sala, este ltimo fechando a porta atrs deles.
Captulo 11
Houve uma pausa constrangida depois que as autoridades policiais saram da sala com Jan. Em seguida, Starkwedder observou:
- Bem, suponho que seja melhor eu ver se eles j conseguiram tirar meu carro da vala. No me pareceu ter passado por ele a caminho daqui.
- No - explicou Laura. - A passagem para carros sobe a partir da outra estrada.
- Entendo - respondeu Starkwedder, enquanto se encaminhava na direo das portas envidraadas. Voltou-se. - Como as coisas parecem diferentes  luz do 
dia - observou, enquanto saa para a varanda.
Assim que ele saiu, Laura e Julian Farrar voltaram-se um para o outro.
- Julian! - exclamou Laura. - Aquele isqueiro! Eu disse que era meu.
- Voc disse que era seu? Ao inspetor? - perguntou Farrar.
- No. Para ele.
- Para... para este sujeito... - comeou Farrar e ento se deteve quando ambos perceberam Starkwedder caminhando ao longo da varanda, junto s janelas. - 
Laura... - recomeou ele.
- Tenha cuidado - disse Laura, indo at a janelinha no recanto e olhando para fora. - Ele pode estar nos ouvindo.
- Quem  ele? - indagou Farrar. - Voc o conhece? 
Laura voltou ao centro da sala.
- No. No, eu no o conheo - respondeu a Farrar. - Ele... ele teve um acidente com seu carro e veio at aqui ontem  noite. Logo depois do...
Julian Farrar tocou a mo dela, que repousava sobre o encosto do sof.
- Est tudo bem, Laura. Voc sabe que vou fazer tudo o que puder.
- Julian... impresses digitais - lembrou Laura, com a voz entrecortada.
- Quais impresses digitais?
- Naquela mesa. Naquela mesa ali, e no quadrado de vidro da porta. Elas so... suas?
Farrar tirou sua mo de sobre a dela, indicando que Starkwedder estava de novo caminhando ao longo da varanda l fora. Sem se voltar para a janela, Laura afastou-se 
dele, dizendo bem alto:
-  muito gentil de sua parte, Julian, e estou certa de que haver uma poro de coisas administrativas com as quais poder nos ajudar.
Starkwedder estava andando de um lado para o outro, l fora na varanda. Quando saiu de vista, Laura virou-se para encarar Julian Farrar outra vez.
- Aquelas impresses so suas, Julian? Pense. 
Farrar considerou por um momento. Em seguida:
- Sobre a mesa... sim... podiam ser.
- Ai, meu Deus! - gritou Laura. - O que vamos fazer? 
Starkwedder podia agora ser mais uma vez percebido de relance, andando de uma ponta a outra da varanda bem junto s janelas. Laura deu uma tragada no cigarro.
- A polcia acha que foi um homem chamado MacGregor... - contou a Julian. Lanou-lhe um olhar desesperado, detendo-se para permitir a ele uma oportunidade 
de fazer algum comentrio.
- Bem, est tudo certo, ento - replicou Farrar. - Eles provavelmente vo continuar pensando assim.
- Mas suponha... - comeou Laura. 
Farrar a interrompeu.
- Preciso ir - disse. - Tenho um compromisso. - Levantou-se. - Est tudo bem, Laura - reafirmou ele, batendo em seu ombro num gesto de conforto. - 
No se preocupe. Vou providenciar para que voc fique bem.
A expresso no rosto de Laura era de incompreenso,  beira do desespero. Aparentemente indiferente a isso, Farrar dirigiu-se para as portas de vidro. Quando 
abriu uma das folhas, Starkwedder estava se aproximando com a inteno bvia de entrar na sala. Farrar afastou-se de lado num gesto corts, para evitar esbarrar 
nele.
- Ora, est de sada agora? - perguntou Starkwedder.
- Sim - respondeu Farrar. - As coisas andam bastante movimentadas estes dias. As eleies esto chegando, sabe, dentro de uma semana.
- Oh, entendo - replicou Starkwedder. - Perdoe minha ignorncia, mas de que partido ? Dos Tory, os conservadores?
- Sou um liberal - retrucou Farrar. Parecia ligeiramente indignado.
- Oh, eles ainda esto nisso? - perguntou Starkwedder, em tom alegre.
Julian Farrar respirou fundo e saiu da sala sem mais nenhuma palavra. Quando partiu, sem exatamente bater a porta atrs de si, Starkwedder olhou para Laura com 
ar quase feroz. Ento, comeou:
- Entendo - disse ele, sua raiva subindo. - Ou pelo menos estou comeando a entender.
- O que quer dizer? - perguntou-lhe Laura.
- Esse  o namorado, no ? - Chegou mais perto dela. - Ora, vamos,  ou no ?
- J que voc est perguntando - replicou Laura em tom de desafio -,  sim!
Starkwedder ficou por um momento olhando para ela sem falar. Em seguida:
- H algumas coisinhas que voc no me contou ontem  noite, no ? - perguntou com raiva. - Foi por isso que voc arrancou o isqueiro dele com toda 
aquela pressa e disse que era seu. - Afastou-se alguns passos e depois voltou-se para encar-la de novo. - E h quanto tempo isto vem acontecendo entre voc 
e ele?
- J faz algum tempo - respondeu Laura calmamente.
- Mas voc nunca se decidiu por deixar Warwick para irem embora juntos?
- No - replicou Laura. - H a carreira de Julian, para comear. Isso poderia arruin-lo politicamente.
Starkwedder sentou-se mal-humorado numa ponta do sof.
- Ah, certamente no, hoje em dia - disparou ele. - Todos eles no tm o adultrio em suas trajetrias?
- Essas teriam sido circunstncias especiais - tentou explicar Laura. - Ele era amigo de Richard, e Richard sendo aleijado...
- Ah, entendo. Com certeza isso no daria uma publicidade l muito boa! - retorquiu Starkwedder.
Laura veio at o sof e ficou de p diante dele, fitando-o.
- Suponho que voc ache que eu devia ter lhe contado isto ontem  noite? - observou, em tom glido.
Starkwedder desviou o olhar dela.
- Voc no tinha obrigao nenhuma - resmungou. 
Laura pareceu abrandar.
- No pensei que fosse importante... - comeou. - Quero dizer... tudo em que conseguia pensar era no fato de ter atirado em Richard.
Starkwedder tambm deu a impresso de ter ficado mais generoso em relao a ela quando murmurou:
- Sim, sim, eu entendo. - Aps uma pausa, acrescentou: - Eu tambm no conseguia pensar em mais nada. - Fez mais uma pausa e, em seguida, ergueu os olhos 
para ela. - Quer tentar uma pequena experincia? - perguntou. - Onde estava quando atirou em Richard?
- Onde eu estava? - Laura fez eco. Parecia perplexa.
- Foi o que eu disse.
Depois de pensar um momento, Laura replicou:
- Oh... daquele lado. - Acenou vagamente na direo das portas envidraadas.
- V at l e fique de p no lugar onde estava - instruiu Starkwedder.
Laura se levantou e comeou a andar nervosamente pela sala.
- Eu... eu no consigo lembrar - disse-lhe. - No me pea para lembrar. - Estava amedrontada agora. - Eu... eu estava perturbada. Eu...
Starkwedder a interrompeu.
- Seu marido lhe disse alguma coisa - relembrou ele. - Alguma coisa que a fez agarrar o revlver.
Erguendo-se do sof, ele foi at a mesa ao lado da poltrona e apagou o cigarro.
- Bem, vamos l, vamos tentar representar - continuou. - Aqui est a mesa, aqui est a arma. - Tirou o cigarro de Laura das mos dela e o ps no cinzeiro. 
- Ento, agora, vocs estavam discutindo. Voc pegou a arma... pegou...
- Eu no quero! - gritou Laura.
- No se faa de bobinha - rosnou Starkwedder. - No est carregada. Venha, pegue-a. Pegue-a.
Laura pegou a arma, hesitante.
- Voc a agarrou - relembrou ele de novo. - No a pegou cheia de cautela desse jeito. Voc a arrancou da e tirou nele. Mostre-me como fez isso.
Segurando a arma de maneira desajeitada, Laura afastou-se dele.
- Eu... eu... - comeou.
- Prossiga. Mostre-me - gritou Starkwedder com ela. 
Laura tentou apontar o revlver.
- V em frente, atire! - repetiu ele, ainda gritando. - No est carregada.
Quando Laura ainda hesitava, ele tomou a arma dela em triunfo.
- Foi o que pensei - exclamou. - Voc nunca disparou um revlver na vida. No sabe como fazer. - Olhando para a arma, continuou: - Voc no sabe 
sequer como fazer para soltar a trava de segurana.
Deixou a arma cair sobre o banquinho, em seguida se encaminhou para trs do sof e voltou-se para encar-la. Aps uma pausa, disse calmamente:
- Voc no atirou em seu marido.
- Atirei - insistiu Laura.
- Ah, no, no atirou - repetiu Starkwedder com convico. 
Aterrorizada, Laura perguntou:
- Ento por que eu diria que fiz isso?
Starkwedder respirou fundo e depois exalou o ar com um rudo. Dando a volta no sof, jogou-se nele pesadamente.
- A resposta me parece bastante bvia. Porque foi Julian Farrar quem atirou nele - retorquiu.
- No! - exclamou Laura, quase gritando.
- Sim!
- No - repetiu ela.
- Eu digo que sim - insistiu ele.
- Se foi Julian - perguntou Laura -, por que motivo no mundo eu diria que fui eu quem fiz isso?
Starkwedder olhou para ela de igual para igual.
- Porque - disse ele - pensou... e pensou de forma bem acertada... que eu daria cobertura a voc. Ah, sim, voc com certeza tinha toda razo quanto a isto. 
- Reclinou-se no sof antes de continuar. - Sim, voc brincou comigo bem direitinho. Mas para mim acabou, est ouvindo? Estou fora. Nem se ficasse doido 
eu ia contar um monte de mentiras para salvar a pele do major Julian Farrar.
Houve uma pausa. Por alguns momentos, Laura no disse nada. Depois sorriu e caminhou calmamente at a mesa junto  poltrona a fim de pegar um cigarro. Encarando 
Starkwedder, disse:
- Ah, sim, voc vai! Voc ter de fazer isso! No pode recuar agora! Voc contou sua histria para a polcia. No pode mud-la.
- O qu? - Starkwedder quase engasgou, apanhado de surpresa.
Laura sentou-se na poltrona.
- Seja l o que sabe, ou pensa que sabe - ela apontou o dedo para ele - ter de se ater  sua histria. Voc  o chamado partcipe postfactum... voc 
mesmo disse isso. - Deu uma baforada no cigarro.
Starkwedder levantou-se e encarou-a. Apalermado, exclamou:
- Bem, estou frito! Sua cadelazinha! - Olhou para ela por alguns instantes sem dizer mais nada e, em seguida, girou nos calcanhares, foi rapidamente at as 
portas de vidro e saiu. Laura observou-o afastando-se a passos largos pelo jardim. Fez um movimento de segui-lo e cham-lo de volta, mas, em seguida, pareceu 
pensar melhor. Com uma expresso inquieta no rosto, afastou-se lentamente das janelas.
Captulo 12
Mais tarde naquele dia, por volta do fim da tarde, Julian Farrar andava nervosamente de um lado para o outro do gabinete. As portas envidraadas da varanda achavam-se 
abertas e o sol estava prestes a se pr, lanando uma luz dourada sobre o gramado. Farrar tinha sido convocado por Laura Warwick, que precisava v-lo com urgncia. 
Consultava o relgio de pulso a todo momento enquanto a esperava.
Farrar parecia muito aborrecido e agitado. Foi olhar l fora, na varanda, voltou para dentro da sala outra vez e verificou as horas em seu relgio. Ento, notando 
um jornal sobre a mesa junto  poltrona, pegou-o. Era um jornal local, The Western Echo, com uma reportagem de primeira pgina relatando a morte de Richard Warwick. 
“PROEMINENTE MORADOR LOCAL ASSASSINADO POR AGRESSOR MISTERIOSO”, anunciava a manchete. Farrar sentou-se na poltrona e comeou a ler o texto, com ar nervoso. 
Aps um momento, atirou o jornal para o lado e encaminhou-se a passos largos para as portas de vidro. Com um ltimo olhar para dentro da sala, partiu pelo gramado 
afora. Estava a meio caminho, no jardim, quando ouviu um som atrs de si. Voltando-se, chamou:
- Laura, desculpe por eu... - e em seguida se deteve, desapontado, quando viu que a pessoa vindo em sua direo no era Laura, mas sim Angell, o criado pessoal 
e assistente do falecido Richard Warwick.
- A senhora Warwick pediu-me para lhe dizer que descer num instante, senhor - foi avisando Angell, enquanto se aproximava de Farrar. - Mas fiquei pensando 
se eu poderia ter uma breve palavrinha com o senhor?
- Claro, claro. O que ?
Angell veio at Julian Farrar, afastando-se mais um ou dois passos da casa, como que ansioso para que sua conversa no fosse ouvida.
- Bem? - disse Farrar, acompanhando-o.
- Estou muito preocupado, senhor - comeou Angell - quanto  minha situao na casa e achei que gostaria de consult-lo sobre o assunto.
Com a cabea cheia de seus prprios assuntos, Julian Farrar no se mostrou verdadeiramente interessado.
- Bem, qual  o problema? - perguntou.
Angell pensou por um momento antes de replicar. E comeou:
- A morte do senhor Warwick, sir - disse -, ela me deixa sem emprego.
- Sim. Sim, suponho que deixe - respondeu Farrar. - Mas imagino que v conseguir outro com facilidade, no vai?
- Espero que sim, senhor - replicou Angell.
- Voc  um homem qualificado, no ? - Farrar perguntou-lhe.
- Ah, sim, senhor, sou qualificado - replicou Angell - e sempre se consegue trabalho disponvel no hospital ou particular. Sei disso.
- Ento o que  que o est perturbando?
- Bem, senhor - disse-lhe Angell -, as circunstncias nas quais este emprego chegou ao fim so muito desgostosas para mim.
- Em bom ingls - observou Farrar -, voc no gosta de se ver envolvido com assassinato. E isso?
- A coisa poderia ser expressa desta maneira, senhor - confirmou o criado.
- Bem - disse Farrar -, receio que no haja nada que algum possa fazer a esse respeito. Presumivelmente, voc receber uma referncia satisfatria 
da senhora Warwick. - Tirou a cigarreira e abriu-a.
- No creio que v haver nenhuma dificuldade quanto a isso, senhor - respondeu Angell. - A senhora Warwick  uma dama muito bondosa... uma dama por demais 
encantadora, se me permite diz-lo. - Havia uma tnue insinuao em seu tom de voz.
Julian Farrar, tendo decidido esperar por Laura afinal, estava prestes a voltar para dentro da casa. Entretanto, voltou-se, intrigado com alguma coisa nos modos 
do criado.
- O que quer dizer? - perguntou, calmamente.
- Eu no gostaria de importunar a senhora Warwick de maneira alguma - replicou Angell, em tom melfluo.
Antes de falar, Farrar tirou um cigarro do estojo e em seguida devolveu a cigarreira ao bolso.
- Quer dizer - comeou -, voc est... se detendo por aqui um pouco para agrad-la?
- Isso  verdade, senhor - afirmou Angell. - Estou ajudando na casa. Mas no era exatamente isso que eu queria dizer. - Fez uma pausa e em seguida continuou: 
-  uma questo, realmente... da minha conscincia, senhor.
- Que diabos est querendo dizer... sua conscincia? - indagou Farrar com aspereza.
Angell pareceu desconfortvel, mas sua voz se mostrava bastante confiante quando continuou:
- No creio que aprecie de fato minhas dificuldades, senhor. Isto , na questo de dar meu depoimento  polcia.  meu dever como cidado assistir  polcia 
de toda maneira possvel. Ao mesmo tempo, desejo permanecer leal a meus patres.
Julian Farrar virou-se para acender o cigarro.
- Voc fala como se houvesse um conflito - disse em tom calmo.
- Se pensar no assunto, senhor - observou Angell -, vai se dar conta de que est destinado a haver um conflito... um conflito de lealdades, se posso colocar 
desta maneira.
Farrar olhou diretamente para o criado.
- Aonde exatamente est pretendendo chegar, Angell? - perguntou.
- A polcia, senhor, no se encontra em situao de apreciar os antecedentes - replicou Angell. - Os antecedentes poderiam... eu disse apenas que poderiam... 
ser muito importantes num caso como este. E, tambm, ultimamente venho sofrendo de uma insnia bastante grave.
- Suas aflies precisam mesmo vir ao caso? - indagou Farrar com rispidez.
- Infelizmente precisam, senhor - foi a resposta afvel do criado. - Eu me recolhi cedo ontem  noite, senhor, mas no consegui dormir.
- Sinto muito quanto a isso - condoeu-se Farrar falsamente, em tom seco -, mas na verdade...
- Veja, senhor - continuou Angell, ignorando a interrupo -, devido  posio do meu quarto nesta casa, tomei conhecimento de certas questes sobre 
as quais a polcia talvez no esteja completamente informada.
- O que, exatamente, est tentando dizer? - perguntou Farrar com frieza.
- O falecido sr. Warwick, senhor - replicou Angell -, era um homem doente e aleijado.  apenas de se esperar que, sob tais circunstncias to tristes, 
uma dama atraente como a senhora Warwick fosse... como devo dizer... estabelecer uma ligao em outro lugar.
- Ento  isso, no ? - disse Farrar. - No creio que esteja gostando do seu tom, Angell.
- No, senhor - murmurou Angell. - Mas, por favor, no se precipite demais em seu julgamento. Basta que pense nisso, senhor. Talvez v compreender minha 
dificuldade. Aqui estou eu, de posse de uma informao que, at agora, no comuniquei  polcia... mas uma informao que, talvez, seja meu dever comunicar 
a eles. 
Julian Farrar fitou Angell friamente.
- Eu acho - disse ele - que essa histria de ir  polcia com sua informao  puro alarde. O que voc est realmente fazendo  sugerir que se encontra 
em situao de levantar muita sujeira, a menos... - fez uma pausa, para depois completar a frase: - ...a menos que o qu?
Angell encolheu os ombros.
- Eu sou, claro, como o senhor acaba de salientar - observou ele -, um enfermeiro-assistente plenamente qualificado. Mas h ocasies, major Farrar, em que 
sinto que gostaria de me estabelecer por conta prpria. Um pequeno estabelecimento... no uma clnica de repouso, exatamente... mas um lugar onde eu pudesse receber 
talvez cinco ou seis pacientes. Com um assistente,  claro. Os pacientes provavelmente incluiriam cavalheiros que so difceis de tratar em casa, do ponto de 
vista do lcool. Esse tipo de coisa. Infelizmente, embora eu tenha acumulado uma certa quantia em economias, elas no so o bastante. Fiquei pensando... - Sua 
voz foi sumindo, sugestivamente.
Julian Farrar completou o pensamento para ele.
- Voc ficou pensando... - disse - se eu... ou eu e a senhora Warwick juntos... no poderamos vir em seu auxlio neste projeto, sem dvida.
- Eu s pensei, senhor - replicou Angell docilmente. - Seria uma grande bondade de sua parte.
- , seria, no  mesmo? - observou Farrar com sarcasmo.
- O senhor sugeriu de forma um tanto spera - prosseguiu Angell - que eu estou ameaando remexer nesta sujeira. Referindo-se, pelo que entendi, a escndalo. 
Mas no  isso, de jeito nenhum, senhor. Eu nem sonharia em fazer uma coisa dessas.
- O que est insinuando, exatamente, Angell? - Farrar falava como se estivesse comeando a perder a pacincia. - Voc com certeza est insinuando alguma 
coisa.
Angell deu um sorriso de auto-reprovao antes de responder. Depois, falou calmamente, mas com nfase.
- Como eu digo, senhor, ontem  noite no consegui dormir muito bem. Estava deitado, acordado, ouvindo o ecoar da sirene. Um som extremamente deprimente, sempre 
o achei, senhor. Depois me pareceu ter ouvido uma veneziana batendo. Um rudo muito irritante, quando voc est tentando dormir. Levantei-me e me debrucei na 
janela. Parecia ser a persiana da janela da copa, quase direto abaixo de mim.
- Bem? - indagou Farrar bruscamente.
- Decidi, senhor, descer e cuidar da veneziana - continuou Angell. - Quando estava a caminho l para baixo, ouvi um tiro. - Fez uma pausa breve. - No 
achei que fosse nada na hora. - “L est o senhor Warwick de novo”, pensei. “Mas certamente ele no pode enxergar no que est atirando nesta nvoa.” 
Fui para a despensa, senhor, e travei a janela. Mas, enquanto estava ali, sentindo-me um tanto inquieto por algum motivo, ouvi passos vindo da trilha do lado de 
fora da janela...
- Voc quer dizer - interrompeu Farrar -, da trilha que... - Seus olhos se dirigiram para ela.
- Sim, senhor - concordou Angell. - A trilha que leva da varanda, contornando o canto da casa, naquela direo... depois das acomodaes dos criados. Uma 
trilha que no  muito usada, exceto,  claro, pelo senhor, quando vem at aqui, considerando que se trata de um atalho da sua casa at esta.
Parou de falar e olhou intensamente para Julian Farrar, que disse apenas, em tom glacial:
- Prossiga.
- Eu estava me sentindo, como disse, um tanto inquieto - continuou Angell -, pensando que poderia haver algum vagabundo por a. No posso lhe dizer o quanto 
fiquei aliviado, senhor, ao v-lo passar pela janela da copa, andando depressa... correndo de volta para casa.
Aps uma pausa, Farrar disse:
- No vejo realmente nenhuma razo de estar me contando isto. Deveria haver algum motivo?
Com uma tossezinha de desculpas, Angell lhe respondeu:
- Fiquei apenas imaginando, senhor, se teria mencionado para a polcia que esteve aqui ontem  noite para ver o senhor Warwick. No caso de no t-lo feito, 
e supondo que eles ainda me interrogassem mais uma vez quanto aos acontecimentos de ontem  noite...
Farrar o interrompeu.
- Voc se d conta, no  - indagou em termos concisos -, de que a pena para chantagem  severa?
- Chantagem, senhor? - respondeu Angell, parecendo chocado. - No sei do que est falando.  s uma questo, como eu disse, de decidir onde se encontra 
o meu dever. A polcia...
- A polcia - interrompeu-o Farrar com aspereza - est perfeitamente satisfeita quanto a quem matou o senhor Warwick. O sujeito praticamente assinou seu 
nome no crime. No  provvel que venham lhe fazer mais nenhuma pergunta.
- Eu lhe garanto, senhor - aparteou Angell, com alarme na voz. - Eu s queria dizer...
- Voc sabe perfeitamente bem - interrompeu Farrar de novo - que no poderia ter reconhecido ningum naquela neblina densa de ontem  noite. Simplesmente 
inventou essa histria a fim de... - cortou a frase, quando viu Laura Warwick surgindo da casa em direo ao jardim.
Captulo 13
-Desculpe por t-lo deixado esperando, Julian - disse Laura quando se aproximou deles. Parecia surpresa por ver Angell e Julian Farrar engajados numa conversa.
- Talvez eu possa lhe falar mais tarde, senhor, sobre este probleminha - murmurou o criado para Farrar. Afastou-se, fazendo uma espcie de meia reverncia 
para Laura, depois subiu depressa pelo jardim, contornando um canto da casa.
Laura observou-o ir embora e em seguida falou em tom urgente.
- Julian - disse ela -, eu preciso... 
Farrar a interrompeu.
- Por que mandou me chamar, Laura - perguntou ele, parecendo aborrecido.
- Fiquei esperando por voc o dia inteiro - replicou Laura, surpresa.
- Bem, eu estive atolado at os ouvidos desde hoje de manh - exclamou Farrar. - Comits, e mais reunies esta tarde. No posso simplesmente largar qualquer 
destas coisas sem mais nem menos to em cima das eleies. E, em todo caso, Laura, no seria muito melhor que no nos encontrssemos no momento?
- Mas h coisas que precisamos discutir - justificou Laura. 
Pegando-a brevemente pelo brao, Farrar conduziu-a para ainda mais longe da casa.
- Voc sabe que Angell est se armando para me chantagear? - perguntou-lhe.
- Angell? - Laura quase gritou, em tom de incredulidade. - Angell o est...?
- Sim. Ele obviamente sabe a nosso respeito... e sabe tambm, ou de qualquer maneira finge saber, que eu estive aqui ontem  noite.
Laura engasgou-se.
- Est dizendo que ele o viu?
- Ele diz que me viu - retorquiu Farrar.
- Mas ele no poderia t-lo visto naquela neblina - insistiu Laura.
- Ele tem uma histria - contou-lhe Farrar -, de que desceu at a despensa para fazer no sei o que com a persiana da janela e me viu passando a caminho 
de casa. Diz tambm que ouviu um tiro, no muito antes disso, mas achou que no fosse nada.
- Oh, meu Deus! - exclamou Laura com um a voz presa. - Que coisa terrvel! O que vamos fazer?
Farrar iniciou um gesto involuntrio, como se estivesse prestes a confortar Laura com um abrao, mas, ento, olhando de relance para a casa, pensou melhor e desistiu. 
Fitou-a com firmeza no olhar.
- Ainda no sei o que vamos fazer - disse ele. - Temos de pensar.
- Voc no vai pagar a ele, com certeza?
- No, no - garantiu-lhe Farrar. - Se a pessoa comea a fazer isso,  o princpio do fim. Mas por outro lado, o que se pode fazer? - Passou uma das 
mos sobre o cenho. - No pensei que algum soubesse que vim at aqui no incio da noite de ontem - continuou. - Tenho certeza de que minha empregada 
no viu. A questo : Angell realmente me viu, ou est apenas fingindo?
- E se ele for  polcia? - perguntou Laura, trmula.
- Eu sei - murmurou Farrar. Mais uma vez, correu uma das mos pela testa. -  preciso pensar... pensar com cuidado. - Comeou a andar de um lado para 
o outro. - H a idia de pagar para ver... dizer que ele est mentindo, que em momento algum eu sa de casa na noite de ontem...
- Mas tem as impresses digitais - lembrou Laura.
- Que impresses digitais? - perguntou Farrar, perplexo.
- Voc esqueceu - relembrou-lhe Laura. - As impresses sobre a mesa. A polcia anda pensando que so de MacGregor, mas se Angell for a eles com esta histria, 
a eles vo pedir para tomar as suas digitais, e ento...
Interrompeu-se de repente. Julian Farrar agora parecia preocupado.
- Sim, sim, entendo - murmurou. - Tudo bem, ento. Terei de confessar que vim at aqui e... contar alguma histria. Vim para ver Richard a respeito de alguma 
coisa e ns conversamos...
- Voc pode dizer que ele estava perfeitamente bem quando o deixou - sugeriu Laura, falando depressa.
Havia poucos vestgios de afeto nos olhos de Farrar quando a fitou.
- Como voc faz parecer fcil! - retorquiu, acalorado. - Posso mesmo dizer isso? - acrescentou com sarcasmo.
- Algum tem de dizer alguma coisa! - disse ela, na defensiva.
- Sim, eu devo ter posto a mo ali quando me inclinei para ver... - engoliu seco, enquanto a cena voltava  sua memria.
- Contanto que eles acreditem que as impresses so de MacGregor - manifestou-se Laura com ansiedade.
- MacGregor! MacGregor! - exclamou Farrar, furioso. Estava quase gritando agora. - Que motivo no mundo fez voc maquinar aquela mensagem do jornal e coloc-la 
no corpo de Richard? No viu que estava correndo um risco horrvel?
- Sim... no... no sei - gritou Laura, confusa. 
Farrar olhou para ela com averso silenciosa.
- Uma maldita coisa to a sangue-frio - resmungou.
- Ns tnhamos de pensar em alguma coisa - Laura suspirou. - Eu... eu simplesmente no conseguia pensar. Foi na verdade idia de Michael.
- Michael?
- Michael Starkwedder - explicou Laura.
- Est dizendo que ele a ajudou? - indagou Farrar. Parecia incrdulo.
- Sim, sim, sim!-gritou Laura com impacincia. - Era por isso que eu queria ver voc... para lhe explicar...
Farrar chegou para perto dela. Seu tom era de um cime glacial quando perguntou, com firmeza:
- O que est Michael - ele enfatizou o primeiro nome de Starkwedder com uma raiva fria - o que est Michael Starkwedder fazendo no meio de tudo isso?
- Ele entrou e... e me encontrou ali - contou Laura. - Eu estava... estava com a arma na mo e...
- Meu bom Deus! - exclamou Farrar com desgosto, afastando-se dela. - E de algum modo voc o convenceu...
- Acho que foi ele quem me convenceu. - Aproximou-se dele. - Oh, Julian... - comeou.
Os braos dela estavam quase lhe circundando o pescoo, mas ele a afastou ligeiramente.
- J lhe disse, vou fazer tudo o que puder. No pense que no vou... mas...
Laura olhou para ele com expresso firme.
- Voc mudou - disse com toda calma.
- Desculpe, mas no posso me sentir da mesma maneira que antes - admitiu Farrar em tom desesperado. - Depois do que aconteceu... eu simplesmente no posso 
mais me sentir o mesmo.
- Eu posso - garantiu-lhe Laura. - Pelo menos, acho que posso. No importaria o que voc tivesse feito, Julian, eu sempre sentiria o mesmo.
- No se preocupe com nossos sentimentos no momento - disse Farrar. - Precisamos cair na realidade dos fatos.
Laura olhou para ele.
- Eu sei - disse ela. - Eu disse a Starkwedder que eu tinha... voc sabe, que eu tinha feito aquilo.
Farrar olhou para ela com ar incrdulo.
- Voc disse isso a Starkwedder?
- Disse.
- E ele concordou em ajudar voc? Ele... um estranho? O homem deve ser louco!
Magoada, Laura retorquiu:
- Acho que talvez ele seja um pouco louco. Mas foi muito confortador.
- Ento  isso! Nenhum homem pode resistir a voc - exclamou Farrar com raiva. -  isso? - Deu um passo para se afastar dela e depois voltou-se para 
encar-la de novo. - Mesmo assim, Laura, assassinato... - Sua voz foi sumindo enquanto sacudia a cabea.
- Eu tenho de tentar nunca pensar nisso - respondeu Laura. - E no foi premeditado, Julian. Foi apenas um impulso. - Falava quase implorando.
- No h necessidade de repassar tudo de novo - disse lhe Farrar. - Temos de pensar agora no que vamos fazer.
- Eu sei - replicou ela. - H as impresses digitais e o seu isqueiro.
- Sim - recordou ele. - Devo t-lo deixado cair quando me inclinei sobre o corpo de Richard.
- Starkwedder sabe que  seu - contou-lhe Laura. - Mas no pode fazer nada a esse respeito. Ele se comprometeu. No pode mudar sua histria agora.
Julian Farrar olhou para ela por um momento. Quando falou, sua voz tinha um tom ligeiramente herico.
- Se chegar a este ponto, Laura, eu assumirei a culpa - tranquilizou-a.
- No, no quero que faa isso - gritou Laura. Agarrou o brao dele fincando-lhe as unhas e em seguida soltou-o depressa, com um olhar nervoso na direo 
da casa. - No quero que faa isso! - repetiu em tom urgente.
- Voc no deve imaginar que eu no compreendo... como aconteceu - disse Farrar, falando com esforo. - Voc pegou a arma, atirou nele sem saber de fato 
o que estava fazendo e...
Laura engasgou-se com a surpresa.
- O qu? Est tentando me dizer que eu o matei? - gritou ela.
- De jeito nenhum - respondeu Farrar. Parecia embaraado. - J lhe disse que estou perfeitamente preparado para assumir a culpa se as coisas chegarem a esse 
ponto.
Laura sacudiu a cabea demonstrando confuso.
- Mas... voc disse... - comeou ela. - Voc disse que sabia como aconteceu.
Ele olhou para Laura com ar resoluto.
- Oua, Laura - disse Julian. - No acho que voc o tenha feito deliberadamente. No creio que tenha sido premeditado. Sei que no foi. Sei muito bem 
que voc s atirou nele porque...
Laura o interrompeu sem perda de tempo.
- Eu atirei nele? - perguntou com a voz entrecortada. - Est realmente fingindo acreditar que eu atirei nele?
Dando as costas para ela, Farrar exclamou com raiva:
- Pelo amor de Deus, isso vai ser impossvel se no formos honestos um com o outro!
Laura parecia desesperada quando, tentando no gritar, anunciou clara e enfaticamente:
- Eu no atirei nele e voc sabe disso!
Houve uma pausa. Julian Farrar virou-se lentamente para encar-la.
- Ento quem foi? - perguntou. Entendendo tudo de repente, acrescentou: - Laura! Voc est tentando dizer que eu atirei nele?
Ficaram de p um em frente ao outro, e nenhum dos dois falou por um momento. Ento Laura disse:
- Eu ouvi o tiro, Julian. - Respirou fundo antes de continuar. - Ouvi o tiro e seus passos na trilha, afastando-se daqui. Desci e l estava ele... morto.
Aps uma pausa, Farrar retrucou calmamente:
- Laura, eu no atirei nele. - Ergueu os olhos para o cu como que buscando auxlio ou inspirao e depois fitou-a com toda intensidade. - Vim at aqui 
para ver Richard - explicou -, para dizer a ele que, depois das eleies, precisaramos chegar a um acordo quanto ao divrcio. Ouvi um tiro pouco antes de 
chegar aqui. Achei apenas que fosse Richard com suas brincadeiras, como sempre. Entrei aqui e l estava ele. Morto. Ainda estava quente. 
Laura achava-se agora absolutamente perplexa.
- Quente? - repetiu num eco.
- No tinha morrido h mais de um ou dois minutos - afirmou Farrar. -  claro que acreditei que voc havia atirado nele. Quem mais poderia ter feito isso?
- No estou entendendo - murmurou Laura.
- Suponho... suponho que possa ter sido suicdio - comeou Farrar, mas Laura o interrompeu.
- No, no poderia, porque...
Interrompeu-se de repente, quando ambos ouviram a voz de Jan dentro da casa, gritando na maior agitao.
Captulo 14
Julian Farrar e Laura correram em direo  casa, quase colidindo com Jan, quando este surgiu, saindo pelas portas envidraadas.
- Laura - gritou Jan enquanto ela o empurrava suavemente, mas com firmeza, de volta ao gabinete de leitura. - Laura, agora que Richard est morto, todas as 
suas pistolas e armas e outras coisas pertencem a mim, no pertencem? Quero dizer, sou o irmo dele, sou o segundo homem na famlia.
Julian Farrar acompanhou-os  sala e vagou distraidamente at a poltrona, sentando-se num dos braos dela enquanto Laura tentava acalmar Jan, que agora se queixava 
com petulncia:
- Benny no quer deixar eu ficar com as armas dele. Ela trancou tudo naquele armrio ali. - Apontou vagamente na direo da porta. - Mas elas so minhas. 
Tenho direito a essas coisas. Faa com que ela me d a chave.
- Agora, oua, Jan, querido - comeou Laura, mas Jan no estava disposto a ser interrompido. Foi depressa at a porta e em seguida virou-se para ela, exclamando: 
- Ela me trata como criana. Mas eu no sou criana, sou um homem. Estou com dezenove anos. J sou quase maior de idade. - Estendeu o brao sobre a porta 
como que para proteger suas armas. - Todas as coisas de caa do Richard pertencem a mim. Eu vou fazer o que Richard fazia. Vou atirar em esquilos, passarinhos 
e gatos. - Riu histericamente. - Eu poderia atirar em gente tambm, se no gostar de algum.
- Voc no deve se agitar demais, Jan - advertiu-o Laura.
- No estou agitado - gritou Jan em tom arrogante. - Mas no vou ser... como  que se chama?... no vou ser vitimizado - Voltou para o centro da sala 
e encarou Laura bem de frente. - Sou o senhor de tudo isto aqui, agora. O dono desta casa. Todo mundo tem de fazer o que eu disser. Fez uma pausa; em seguida, 
voltou-se e se dirigiu a Julian Farrar. - Eu poderia ser um juiz de paz, se eu quisesse, agora, no , Julian?
- Acho que ainda  um pouco jovem para isso - disse-lhe Farrar. 
Jan deu de ombros e virou-se de novo para Laura.
- Vocs todos me tratam como criana - queixou-se de novo. - Mas no podem mais fazer isso... no agora que Richard morreu. - Jogou-se no sof, com 
as pernas esparramadas. - Acho que estou rico, no estou? - acrescentou. - Esta casa me pertence. Ningum pode mais me mandar de l para c. Eu posso mandar 
nas pessoas. No vou mais receber ordens ditadas por essa velha boba da Benny. Se Benny tentar me dar ordens, eu vou... - Deteve-se e depois acrescentou com 
ar infantil: - Eu sei muito bem o que vou fazer!
Laura se aproximou dele.
- Oua, Jan, querido - murmurou gentilmente. - Este  um momento de muita preocupao para todos ns, e as coisas de Richard no pertencem a ningum 
at que os advogados venham, leiam seu testamento e faam o que eles chamam de inventrio dos bens. Isso  o que acontece quando algum morre. At ento, 
todos ns temos de esperar. Entendeu?
O tom de Laura teve um efeito calmante e tranqilizador sobre Jan. O rapaz ergueu os olhos para a cunhada e depois passou o brao em volta de sua cintura, aninhando-se 
a ela.
- Eu entendo o que voc me diz, Laura - disse ele. - Eu gosto de voc, Laura. Gosto muito.
- Claro, querido - murmurou Laura docemente. - Eu tambm gosto de voc.
- Voc est contente porque Richard morreu, no est? - perguntou-lhe Jan de repente.
Ligeiramente surpresa, Laura replicou depressa:
- No,  claro que no estou contente.
- Ah, est, sim - disse Jan em tom matreiro. - Agora voc pode se casar com Julian.
Laura olhou rapidamente para Julian Farrar, que se levantou da poltrona enquanto Jan continuava:
- Voc quer se casar com Julian h uma poro de tempo, no quer? Eu sei. Eles acham que eu no noto ou sei das coisas. Mas eu percebo. E, assim, est 
tudo bem para vocs dois agora. Ficou tudo bem para vocs, e os dois esto contentes. Vocs esto contentes porque...
Interrompeu o que estava dizendo porque ouviu a senhorita Bennett no corredor chamando:
- Jan! 
Ele riu:
- Velha boba, Benny! - gritou de volta, subindo e descendo do sof.
- Agora, seja bonzinho com Benny - admoestou Laura, enquanto o puxava para ficar de p, aquietando-o. - Ela tem tido um bocado de problemas e preocupaes 
com tudo isso. - Levando Jan para a porta, Laura continuou suavemente: - Voc precisa ajudar a Benny, Jan, porque  o homem da famlia agora.
Jan abriu a porta e depois olhou de Laura para Julian.
- Tildo bem, tudo bem - prometeu, com um sorriso. - Vou ajudar. - Deixou a sala, fechando a porta atrs de si e chamando - Benny! - enquanto saa.
Laura voltou-se para Julian Farrar, que havia se levantado da poltrona e caminhado at ela.
- No tenho idia do que ele sabe a nosso respeito - exclamou ela.
- Esse  o problema com as pessoas como Jan - comentou Farrar. - Voc nunca sabe o quanto eles sabem. Ele  muito... bem, ele sai do controle com bastante 
facilidade, no sai?
- Sim, ele de fato fica agitado muito facilmente - admitiu Laura. - Mas agora que Richard no est aqui para provoc-lo, ele vai se acalmar. Vai conseguir 
ficar mais normal. Tenho certeza de que vai.
Julian Farrar pareceu em dvida.
- Bem, no sei de nada quanto a isto - comeou, mas deteve-se quando Starkwedder de repente apareceu nas portas envidraadas.
- Ol... boa-noite - chamou Starkwedder, bastante alegre.
- Oh, er... boa-noite - replicou Farrar, hesitante.
- Como vai tudo? Alegre e feliz? - inquiriu Starkwedder, olhando de um para o outro. De repente deu um sorriso malicioso. - Entendo - observou. - Dois 
 bom, trs  demais. - Entrou na sala. - No devia ter vindo pela porta da varanda desse jeito. Um cavalheiro teria chegado pela porta da frente e tocado 
a campainha.  isso? Mas, tambm, vejam vocs, eu no sou nenhum cavalheiro.
- Oh, por favor... - comeou Laura, mas Starkwedder a interrompeu.
- Para falar a verdade - explicou - eu vim por duas razes. Primeiro, para dizer adeus. Meu carter foi investigado e tudo ficou esclarecido. Dois telegramas 
de alto nvel vindos de Abadan afirmaram que eu sou um sujeito timo e honrado. Assim, estou livre para partir.
- Lamento que esteja indo embora... to cedo - disse-lhe Laura, com um sentimento genuno na voz.
- Isso  gentil de sua parte - respondeu Starkwedder com um toque de amargura - considerando a maneira como me intrometi neste seu crime de famlia. - 
Olhou para ela por um momento e depois caminhou at a cadeira da escrivaninha. - Mas vim pelo terrao por uma outra razo - prosseguiu. - A polcia me 
trouxe at aqui em seu carro. E, embora tenham ficado de bico calado o tempo todo, eu acredito que alguma coisa est acontecendo! 
Desolada, Laura balbuciou:
- A polcia voltou?
- Sim - afirmou Starkwedder com ar decidido.
- Mas eu achei que eles haviam encerrado o trabalho esta manh - disse Laura.
Starkwedder devolveu-lhe um olhar astuto.
-  por isso que eu digo... algo est acontecendo! - exclamou. 
Ouviram-se vozes do lado de fora do corredor. Laura e Julian Farrar se aproximaram um do outro quando a porta se abriu e a me de Richard Warwick entrou, parecendo 
muito ereta e controlada, embora ainda caminhasse com o auxlio de uma bengala.
- Benny! - chamou a senhora Warwick por cima do ombro e depois se dirigiu a Laura. - Ah, voc est a, Laura. Andei lhe procurando.
Julian Farrar foi at a senhora Warwick e ajudou-a a se sentar na poltrona.
- Que gentileza sua vir at aqui de novo, Julian - exclamou a velha dama - quando ns todos sabemos o quanto est ocupado.
- Eu teria vindo antes, senhora Warwick - disse-lhe Farrar, enquanto a acomodava na cadeira -, mas este foi um dia particularmente catico. Qualquer coisa 
que eu possa fazer para ajudar... - Parou de falar quando a senhorita Bennett entrou, acompanhada pelo inspetor Thomas. Carregando uma valise, o inspetor adiantou-se 
para ocupar uma posio central. Starkwedder foi se sentar na cadeira da escrivaninha e acendeu um cigarro, enquanto o sargento Cadwallader chegava com Angell, 
que fechou a porta e manteve-se encostado nela.
- No consigo encontrar o jovem senhor Warwick, senhor - relatou o sargento, atravessando a sala at as janelas envidraadas.
- Ele est l fora em algum lugar. Saiu para um passeio - anunciou a senhorita Bennett.
- No tem importncia - disse o inspetor. Houve uma pausa momentnea enquanto ele fazia um levantamento dos ocupantes da sala. Seu comportamento havia mudado, 
porque agora apresentava um ar inflexvel que no havia antes.
Aps aguardar um instante para que ele falasse, a senhora Warwick perguntou com frieza:
- Pelo que entendi, o senhor tem mais outras perguntas a nos fazer, inspetor Thomas?
- Sim, senhora Warwick - replicou ele -, receio que tenha razo.
A voz da senhora Warwick soou exaurida quando ela perguntou:
- O senhor ainda no tem nenhuma notcia deste homem, MacGregor?
- Ao contrrio.
- J o encontraram? - perguntou ansiosa a senhora Warwick.
- J - foi a resposta concisa do inspetor.
Houve uma completa agitao do grupo ali reunido. Laura e Julian Farrar pareciam incrdulos, e Starkwedder girou em sua cadeira a fim de encarar o inspetor.
A voz da senhorita Bennett de repente repicou num tom agudo.
- O senhor o prendeu, ento?
O inspetor olhou para ela por um momento antes de responder. Ento, retrucou:
- Isso, receio eu, seria impossvel, senhorita Bennett - informou a ela.
- Impossvel? - interps a senhora Warwick. - Mas por qu?
- Porque ele est morto - replicou o inspetor, com toda calma.
Captulo 15
Choque e silncio saudaram o anncio do inspetor Thomas. Em seguida, em tom hesitante e, ao que pareceu, temeroso, Laura sussurrou:
- O que... que foi que o senhor disse?
- Eu disse que este homem, MacGregor, est morto - afirmou o inspetor.
Houve palavras balbuciadas por todos na sala, e o inspetor se estendeu sobre sua breve comunicao.
- John MacGregor - contou a eles - morreu no Alasca h mais de dois anos... no muito tempo depois de ter retornado ao Canad, vindo da Inglaterra.
- Morto! - exclamou Laura, incrdula. 
Desapercebido por qualquer pessoa na sala, o jovem Jan passou depressa pelo terrao, em frente s portas envidraadas, e desapareceu de vista.
- Isso faz alguma diferena, no ? - continuou o inspetor. - No foi John MacGregor quem ps aquele bilhete de vingana no cadver do senhor Warwick. 
Mas est claro, no est, que o papel foi posto ali por algum que sabia tudo sobre MacGregor e o acidente em Norfolk. O que restringe a coisa, de forma muito 
definitiva, a algum de dentro desta casa.
- No - exclamou a senhorita Bennett em tom estridente. - No, poderia ter sido... certamente poderia ter sido... - Deteve-se.
- Sim, senhorita Bennett? - instou-a a falar o inspetor. Esperou por um momento, mas a senhorita Bennett no conseguia continuar. De repente, parecendo completamente 
arrasada, afastou-se na direo das portas de vidro.
O inspetor voltou sua ateno para a me de Richard Warwick.
- A senhora compreende, madame - disse ele, tentando incluir uma nota de simpatia em sua voz -, que isso altera as coisas.
- Sim, posso perceber isso - replicou a senhora Warwick. Ergueu-se: - Ainda vai precisar de mim, inspetor? - perguntou.
- No por enquanto, senhora Warwick - respondeu o inspetor.
- Obrigada - murmurou a senhora Warwick enquanto se dirigia para a porta, que Angell se apressou em abrir. Julian Farrar ajudou a velha senhora. Quando ela saiu, 
Farrar retornou e ps-se de p atrs da poltrona, pensativo. Enquanto isso, o inspetor Thomas abriu sua valise e agora tirava dela uma arma.
Angell achava-se prestes a acompanhar a senhora Warwick, saindo da sala, quando o inspetor chamou em tom peremptrio:
- Angell!
O criado pessoal teve um sobressalto e voltou para dentro da sala, fechando a porta.
- Sim, senhor? - respondeu calmamente.
O inspetor se aproximou dele, carregando o que era nitidamente a arma do crime.
- Quanto a esta arma - perguntou ao criado. - Voc se mostrou indeciso esta manh. Pode ou no pode dizer definitivamente que ela pertencia ao senhor Warwick?
- Eu no gostaria de ser definitivo, inspetor - replicou Angell. - Ele tinha tantas, entenda.
- Esta aqui veio do continente - informou-lhe o inspetor, segurando o revlver diante de seus olhos. -  uma espcie de suvenir de guerra de algum tipo, 
eu diria.
Quando estava falando, mais uma vez e aparentemente desapercebido por todos na sala, Jan passou ao longo do terrao l fora, indo na direo oposta, e carregando 
uma arma que dava a impresso de estar tentando esconder. 
Angell olhou para a arma.
- O senhor Warwick de fato tinha algumas armas estrangeiras, senhor - declarou. - Mas ele cuidava pessoalmente de todo o seu equipamento de tiro. No me deixava 
nem tocar nelas.
O inspetor foi at Julian Farrar.
- Major Farrar - disse -, o senhor provavelmente tem suvenires de guerra. Esta arma significa alguma coisa para o senhor?
Farrar relanceou os olhos pela arma com ar displicente.
- Nada, receio - respondeu ele. 
Dando-lhe as costas e afastando-se dele, o inspetor reps a arma na valise.
- O sargento Cadwallader e eu - anunciou, voltando-se para encarar todo o grupo ali reunido - vamos querer verificar toda a coleo de armas do senhor Warwick 
detalhadamente. Ele tinha licenas para a maioria delas, pelo que entendi.
- Ah, sim, senhor - garantiu Angell. - As licenas encontram-se em uma das gavetas do seu quarto. E todas as pistolas, revlveres e outras armas esto no 
armrio reservado especialmente para elas. 
O sargento Cadwallader encaminhou-se at a porta, mas foi impedido pela senhorita Bennett antes que pudesse sair da sala.
- Espere um minuto - chamou-o ela. - O senhor vai querer a chave do armrio de armas. - Tirou uma chave do bolso.
- A senhorita o trancou? - inquiriu o inspetor, voltando-se bruscamente para ela. - Por que isso?
A rplica da senhorita Bennett foi igualmente rspida.
- Dificilmente eu pensaria que o senhor teria necessidade de perguntar - disparou. - Todas aquelas armas, e munies tambm. Altamente perigosas. Todo mundo 
sabe disso.
Disfarando um sorriso de malcia, o sargento pegou a chave que ela lhe ofereceu e foi at a porta, detendo-se no umbral para ver se o inspetor desejava acompanh-lo. 
Nitidamente aborrecido com o comentrio impertinente da senhorita Bennett, o inspetor Thomas observou:
- Vou precisar falar com voc de novo, Angell - enquanto pegava a valise e saa da sala. O sargento o acompanhou, deixando a porta aberta para Angell.
Entretanto, o criado no saiu da sala imediatamente. Em vez disso, aps um olhar nervoso para Laura, que agora sentava-se fitando o cho, chegou perto de Julian 
Farrar e murmurou:
- Sobre aquele probleminha, senhor. Estou ansioso por ver alguma coisa acertada em breve. Se pudesse dar um jeito, senhor....
Falando com dificuldade, Farrar respondeu:
- Acho que... alguma coisa... pode ser arranjada.
- Obrigado, senhor - respondeu Angell com um tnue sorriso no rosto. - Muito obrigado, senhor. - Foi at a porta e estava prestes a sair da sala quando 
Farrar o deteve com um peremptrio:
- No! Espere um momento, Angell.
Quando o criado se voltou para encar-lo, Farrar chamou alto:
- Inspetor Thomas!
Houve uma pausa tensa. Ento, aps um ou dois instantes, o inspetor apareceu no umbral, com o sargento atrs dele.
- Sim, major Farrar? - indagou o inspetor, calmamente. 
Retomando um comportamento agradvel, natural, Julian Farrar andou a passos largos at a poltrona.
- Antes que se ocupe com a rotina, inspetor - observou ele -, h uma coisa que eu devia ter-lhe dito. Realmente, suponho, eu devia ter mencionado isso esta 
manh. Mas estvamos todos to perturbados. A senhora Warwick acabava de me informar que havia algumas impresses digitais as quais o senhor estava ansioso 
por identificar. - Fez uma pausa e ento acrescentou, com naturalidade. - Com toda probabilidade, inspetor, estas so as minhas impresses digitais.
Houve uma pausa. O inspetor se aproximou lentamente de Farrar e depois perguntou calmamente, mas com uma nota acusadora na voz:
- O senhor esteve aqui ontem  noite, major Farrar?
- Sim - replicou Farrar. - Vim at aqui, como fao com frequncia aps o jantar, para ter uma conversa com Richard.
- E o senhor o encontrou...? - provocou o inspetor.
- Encontrei-o muito melanclico e deprimido. Ento, no fiquei por muito tempo.
- A que horas foi isso, mais ou menos, major Farrar? 
Farrar pensou por um momento e em seguida replicou:
- No consigo me lembrar de fato. Talvez dez da noite, ou dez e meia. Por a.
O inspetor olhou-o com firmeza.
- Pode ser um pouco mais preciso do que isso? - indagou.
- Lamento. Receio que no possa - foi a resposta imediata de Farrar.
Aps uma pausa um tanto tensa, o inspetor perguntou, tentando parecer natural:
- Imagino que no tenha havido nenhuma discusso... ou alguma troca de palavras desagradveis de qualquer tipo?
- No, certamente no - retorquiu Farrar indignado, consultando seu relgio de pulso. - Estou atrasado - observou. - Preciso assumir a presidncia 
da mesa na reunio da Prefeitura. No posso deix-los esperando. - Voltou-se e caminhou em direo s portas envidraadas. - Assim, se no se importa... 
- Parou na varanda.
- No se deve deixar o Conselho da Prefeitura esperando - concordou o inspetor, acompanhando-o. - Mas estou certo de que compreende, major Farrar, que eu 
gostaria de uma declarao completa quanto aos seus movimentos ontem  noite. Talvez possamos fazer isso amanh de manh. - Fez uma pausa e, em seguida, continuou: 
- O senhor se d conta, claro, de que no est obrigado a fazer tal declarao, de que  um ato puramente voluntrio... e de que o senhor conta com todo 
o direito de ter um advogado presente, se assim o desejar.
A senhora Warwick havia entrado de novo na sala. Ficou parada no umbral, deixando a porta aberta, ouvindo as ltimas palavras do inspetor. Julian Farrar tomou flego 
ao captar o significado daquilo que o inspetor acabava de dizer.
- Eu compreendo... perfeitamente - respondeu. - Digamos, dez horas, amanh de manh? E meu advogado estar presente.
Farrar saiu pelo terrao, e o inspetor voltou-se para Laura Warwick.
- A senhora viu o major Farrar quando ele esteve aqui ontem  noite? - perguntou a ela.
- Eu... eu... - comeou Laura, insegura, mas foi interrompida por Starkwedder, que de repente deu um pulo de sua cadeira indo at eles, interpondo-se entre 
o inspetor e Laura.
- No creio que a senhora Warwick se sinta disposta a responder a qualquer pergunta agora - afirmou ele.
Captulo 16
Starkwedder e o inspetor Thomas se encararam em silncio por um instante. Depois, o inspetor falou. 
- O que foi que disse, senhor Starkwedder? - perguntou, com toda a calma.
- Eu disse - replicou Starkwedder - que no acho que a senhora Warwick se sinta disposta a ouvir mais perguntas neste exato momento.
-  mesmo? - grunhiu o inspetor. - E por que isso seria da sua conta, posso saber?
A senhora Warwick, me de Richard, aderiu ao confronto.
- O senhor Starkwedder tem toda a razo - anunciou.
O inspetor voltou-se para Laura com ar indagador. Aps uma pausa, ela murmurou:
- No, eu no quero responder mais pergunta nenhuma agora.
De forma bastante presunosa, Starkwedder sorriu para o inspetor, que virou para o outro lado com raiva e, num movimento veloz, deixou a sala com o sargento. 
Angell os acompanhou, fechando a porta atrs de si. Laura explodiu:
- Mas eu devia falar. Eu preciso... preciso contar a eles...
- O senhor Starkwedder est certo, Laura - contraps a senhora Warwick em tom convincente. - Quanto menos voc disser agora, melhor. - Deu alguns passos 
pela sala, apoiando-se pesadamente em sua bengala, e depois continuou: - Precisamos entrar em contato com o senhor Adams imediatamente. - Voltando-se para 
Starkwedder, explicou: - O senhor Adams  nosso advogado. - Relanceou os olhos na direo da senhorita Bennett. - ligue para ele agora, Benny.
A senhorita Bennett assentiu indo at o telefone, mas a senhora Warwick a deteve.
- No, use a extenso l em cima - instruiu, acrescentando: - Laura, v com ela.
Laura se levantou e hesitou, olhando com expresso confusa para a sogra, que meramente acrescentou:
- Quero conversar com o senhor Starkwedder.
- Mas... - comeou Laura, apenas para ser imediatamente interrompida pela senhora Warwick.
- Agora, no se preocupe, minha querida - tranquilizou-a a velha dama. - Apenas faa o que eu digo.
Laura hesitou por um momento e depois saiu para o vestbulo, seguida pela senhorita Bennett, que fechou a porta. A senhora Warwick falou imediatamente com Starkwedder.
- No sei de quanto tempo dispomos - disse ela, falando rpido e olhando na direo da porta. - Quero que o senhor me ajude.
Starkwedder pareceu surpreso.
- Como? - perguntou ele.
Aps uma pausa, a senhora Warwick falou de novo.
- O senhor  um homem inteligente... e  um estranho. Entrou em nossas vidas vindo de fora. No sabemos nada a seu respeito. O senhor no tem nada a ver com 
qualquer um de ns.
Starkwedder assentiu.
- O visitante inesperado, hein? - murmurou. Empoleirou-se num dos braos do sof. - Isso j me foi dito - observou ele.
- Porque o senhor  um estranho - continuou a senhora Warwick - existe algo que vou lhe pedir para fazer por mim. - Atravessou as portas envidraadas e 
saiu para o terrao, vasculhando-o com os olhos em ambas as direes.
Depois de algum tempo, Starkwedder falou.
- Sim, senhora Warwick?
Voltando  sala, a senhora Warwick comeou a falar com certa urgncia.
- At esta tarde - disse ela - havia uma explicao razovel para esta tragdia. Um homem a quem meu filho havia magoado... matando acidentalmente o filho 
dele... veio buscar vingana. Soa melodramtico, mas, afinal, a gente l a respeito desse tipo de coisa acontecendo.
-  como a senhora diz - observou, Starkwedder imaginando aonde aquela conversa estaria levando.
- Mas agora, receio que esta explicao tenha desaparecido - continuou a senhora Warwick. - E isso traz o assassinato de meu filho de volta para dentro da 
famlia. - Deu alguns passos em direo  poltrona. - Agora, existem duas pessoas que definitivamente no poderiam ter atirado em meu filho. E elas so 
a mulher dele e a senhorita Bennett. As duas estavam efetivamente juntas quando o tiro foi disparado.
Starkwedder lanou um rpido olhar para ela, mas tudo o que disse foi:
- Certamente.
- Entretanto - continuou a senhora Warwick -, embora Laura no pudesse ter atirado no marido, ela poderia saber quem o fez.
- Isso a tornaria uma partcipe antes do fato, talvez cmplice intelectual - observou Starkwedder. - Ela e este Julian Farrar estariam juntos na histria? 
 isso o que quer dizer?
Uma expresso de aborrecimento cruzou o rosto da senhora Warwick.
- No foi isto o que eu quis dizer - retrucou ela. Lanou mais um rpido olhar para a porta, em seguida continuou. - Julian Farrar no atirou no meu filho.
Starkwedder ergueu-se do brao do sof.
- Como  possvel que tenha certeza disso? - perguntou.
- Eu sei e pronto - foi a rplica da senhora Warwick. Ela olhou com firmeza para o homem  sua frente. - Vou contar ao senhor, um estranho, algo que ningum 
em minha famlia sabe. - Falou com toda a calma. -  o seguinte: sou uma mulher que no tem muito tempo de vida.
- Lamento muito... - comeou Starkwedder, mas a senhora Warwick ergueu a mo para det-lo.
- No estou lhe contando isso em busca de comiserao - observou. - Estou lhe contando a fim de desvendar o que, de outra maneira, poderia ser de difcil 
explicao. H momentos em que voc decide por um rumo de ao pelo qual no optaria se tivesse muito anos de vida  sua frente.
- Tais como? - perguntou Starkwedder em tom tranquilo. 
A senhora Warwick o olhou com firmeza.
- Primeiro, devo lhe contar uma outra coisa, senhor Starkwedder - disse ela. - Devo lhe contar algo a respeito de meu filho. - Foi at o sof e se sentou. 
- Eu amava meu filho com todo carinho. Quando criana, e quando jovem, ele tinha vrias qualidades excelentes. Era bem-sucedido, engenhoso, corajoso, de temperamento 
risonho, uma companhia adorvel. - Fez uma pausa e pareceu estar relembrando. Em seguida, continuou. - Havia, devo admitir, sempre os defeitos correspondentes 
a estas qualidades. Era impaciente com relao a controles, a restries. Tinha um trao de crueldade no carter e ostentava uma espcie de arrogncia fatal. 
Enquanto tinha sucesso, estava tudo bem. Mas ele no contava com o tipo de natureza que podia lidar com a adversidade, e j h algum tempo eu vinha observando 
sua lenta decadncia.
Starkwedder sentou-se em silncio no banquinho, de frente para ela.
- Se eu disser que ele se tornou um monstro - continuou a me de Richard Warwick -, isso soaria exagerado. E, ainda assim, em certos aspectos ele era um monstro... 
Porque ele prprio tinha se ferido, sentia um desejo enorme de ferir os outros. - Uma nota severa se insinuou em sua voz. - Assim, outros comearam a sofrer 
por causa dele. O senhor me entende?
- Creio que sim... sim - murmurou Starkwedder em tom suave.
A voz da senhora Warwick tornou-se outra vez branda quando ela prosseguiu.
- Agora, eu gosto muito da minha nora. Ela tem fibra, bom corao, e uma capacidade de resistncia muito grande. Richard a envolveu de todas as maneiras, mas 
no sei se algum dia ela foi realmente apaixonada por ele. Entretanto, vou lhe dizer isso... ela fez tudo o que uma esposa poderia fazer para tornar a doena 
e a inatividade de Richard suportveis.
Pensou por um momento, e sua voz estava triste quando continuou:
- Mas ele no aceitava a ajuda dela. Rejeitava tudo. Penso s vezes que ele a odiava, e talvez isso seja mais natural do que se poderia imaginar. Assim, quando 
lhe digo que o inevitvel aconteceu, creio que o senhor ir entender do que estou falando. Laura se apaixonou por outro homem, e ele por ela.
Starkwedder olhou para a senhora Warwick com ar pensativo.
- Por que est me contando tudo isso? - indagou.
- Porque o senhor  um estranho - replicou ela, com firmeza. - Estes amores, dios e tribulaes no significam nada para o senhor, de modo que pode ouvi-los 
sem se deixar atingir.
-  possvel.
Como se no o tivesse ouvido, a senhora Warwick continuou falando.
- Ento chegou o momento - prosseguiu ela - em que pareceu que somente uma coisa solucionaria todas as dificuldades. A morte de Richard.
Starkwedder continuou a analisar seu rosto.
- E assim - murmurou ele -, convenientemente, Richard morreu?
- Sim - respondeu a senhora Warwick.
Houve uma pausa. Em seguida, Starkwedder se levantou, contornou o banquinho, indo at a mesa para apagar o cigarro.
- Desculpe-me por expor a coisa de maneira to rude, senhora Warwick - disse ele -, mas a senhora est confessando um assassinato?
Captulo 17
A senhora Warwick ficou em silncio por alguns instantes. Ento, disse bruscamente: 
- Vou lhe fazer uma pergunta, senhor Starkwedder. O senhor pode entender que algum que tenha dado a vida possa tambm se sentir com o direito de tirar essa 
vida?
Starkwedder andou de um lado para o outro da sala enquanto pensava a respeito disso. Finalmente, disse:
- Tem-se ouvido falar de mes que matam seus filhos, sim - admitiu. - Mas em geral  por algum motivo srdido... seguro devida... ou talvez porque j tm 
dois ou trs filhos e no querem ser incomodadas por mais um. - Voltando-se subitamente para encar-la, perguntou depressa: - A morte de Richard a beneficia 
financeiramente?
- No, no beneficia - replicou a senhora Warwick com firmeza.
Starkwedder fez um gesto de desaprovao.
- A senhora ter de perdoar a minha franqueza... - comeou ele, apenas para ser interrompido pela senhora Warwick, que perguntou com mais do que um toque 
de aspereza na voz:
- O senhor entende o que estou tentando lhe dizer?
- Sim, acho que entendo - replicou ele. - A senhora est me dizendo que  possvel uma me matar um filho. - Caminhou at o sof e se jogou sobre ele 
enquanto continuava. - E est me dizendo tambm... especificamente... que  possvel que a senhora tenha matado o seu filho. - Fez uma pausa e fitou-a 
com firmeza. - Isso  uma teoria - indagou - ou devo entend-la como um fato?
- Eu no estou confessando coisa alguma - respondeu a senhora Warwick. - Estou simplesmente expondo para o senhor vim certo ponto de vista. Uma emergncia 
poderia surgir num momento em que eu no estivesse mais aqui para lidar com ela. E na eventualidade de uma tal coisa acontecer, quero que tenha isto consigo e 
faa uso dele. - Tirou um envelope do bolso e entregou-o ao homem. 
Starkwedder pegou o envelope, mas observou:
- Est tudo muito bem. Entretanto, eu no deverei me encontrar por aqui. Estou voltando para Abadan, para continuar o meu trabalho.
A senhora Warwick fez um gesto de impacincia, nitidamente considerando a objeo como algo insignificante.
- O senhor no estar isolado do contato com a civilizao - ela o fez lembrar. - Existem jornais, rdios, e assim por diante em Abadan, presumivelmente.
- Ah, sim - concordou ele. - Temos todas as bnos da civilizao.
- Ento, por favor, guarde este envelope. Est vendo a quem ele  endereado?
Starkwedder relanceou os olhos pelo envelope.
- Ao Chefe de Polcia. Sim. Mas no est de modo algum claro para mim o que realmente se passa em sua cabea - disse ele  senhora Warwick. - Para uma 
mulher, a senhora  de fato notavelmente capaz de guardar um segredo. Ou a senhora mesma cometeu este crime, ou sabe quem o cometeu. Isso est certo, no est?
Ela desviou o olhar enquanto respondia:
- No quero discutir esta questo. 
Starkwedder sentou-se na poltrona:
- Eu gostaria muito de saber o que se passa em sua cabea. - insistiu.
- Nesse caso, receio que no v lhe contar - retorquiu a senhora Warwick. - Como o senhor diz, sou uma mulher que sabe guardar bem os segredos.
Decidido a tentar uma trilha diferente, Starkwedder disse:
- Este sujeito, o criado pessoal... o cara que tomava conta de seu filho... - Fez uma pausa, como se tentasse lembrar o nome do criado.
- Est se referindo a Angell - a senhora Warwick o fez lembrar. - Bem, o que h com Angell?
- A senhora gosta dele? - perguntou Starkwedder.
- No, no gosto, acontece que no me dou com ele - replicou ela. - Mas ele se mostrava eficiente no servio, e Richard com certeza no era uma pessoa 
fcil de lidar.
- Imagino que no - observou Starkwedder. - Mas Angell sabia lidar com essas dificuldades, no ?
- Fazia com que isso tivesse o seu valor reconhecido - foi a estranha resposta da senhora Warwick.
Starkwedder mais uma vez comeou a andar de um lado para o outro da sala. Em seguida, virou-se para encarar a senhora Warwick e, tentando extrair alguma coisa dela, 
perguntou:
- Richard tinha alguma coisa contra ele?
A velha senhora pareceu intrigada por um momento.
- Contra ele? - repetiu. - O que quer dizer? Ah, entendo. Est querendo dizer, Richard sabia de alguma coisa que comprometesse Angell?
- Sim,  isso que eu quero dizer - Starkwedder afirmou. - Ele tinha algum domnio sobre Angell?
A senhora Warwick pensou por um momento antes de replicar. Em seguida, concluiu:
- No, acho que no - disse ela.
- Eu estava s pensando... - comeou Starkwedder.
- O senhor quer dizer - interps a senhora Warwick com impacincia - que foi Angell quem atirou em meu filho? Duvido. Duvido muito.
- Entendo. Essa a senhora no compra - observou Starkwedder. - Uma pena, mas a est.
A senhora Warwick se levantou de repente.
- Obrigada, senhor Starkwedder - disse ela. - O senhor foi muito gentil.
Estendeu-lhe a mo. Divertido com o jeito brusco da senhora, ele apertou-lhe a mo, e foi at a porta a fim de abri-la para ela. Aps um momento, ela saiu da 
sala. Starkwedder fechou a porta atrs da senhora Warwick, sorrindo.
- Bem, que droga! - exclamou consigo mesmo, enquanto olhava de novo para o envelope. - Que mulher!
Com um gesto apressado, ps o envelope no bolso, enquanto a senhorita Bennett entrava na sala parecendo aborrecida e preocupada.
- O que ela andou dizendo ao senhor? - quis saber a governanta. 
Apanhado de surpresa, Starkwedder tentou ganhar tempo.
- Hein? O que  isso? - respondeu.
- A senhora Warwick... o que ela andou dizendo? - perguntou a senhorita Bennett de novo.
Evitando uma resposta direta, Starkwedder observou meramente:
- A senhorita parece perturbada.
-  claro que estou perturbada - replicou ela. - Eu sei do que ela  capaz.
Starkwedder olhou para a governanta com firmeza antes de perguntar:
- Do que a senhora Warwick  capaz? Assassinato? 
A senhorita Bennett deu um passo em direo a ele.
- Foi nisso que ela esteve tentando fazer o senhor acreditar? - indagou ela. - Isso no  verdade, o senhor sabe. O senhor precisa entender. Isso no  
verdade.
- Bem, no se pode ter certeza. Afinal, poderia ser - observou ele em tom judicioso.
- Mas eu lhe digo que no  - insistiu ela.
- Como  possvel que a senhorita saiba disso? - perguntou Starkwedder.
- Eu sei - replicou a senhorita Bennett com forte entonao. - O senhor acha que existe alguma coisa que eu no saiba sobre as pessoas nesta casa? Estou 
com eles h anos. Anos, repito. - Sentou-se na poltrona. - Tenho muito afeto por eles... todos eles.
- Inclusive pelo falecido Richard Warwick? - perguntou Starkwedder.
A senhorita Bennett pareceu perdida em pensamentos por um instante. E depois, divagou:
- Eu gostava dele... antes - replicou.
Houve uma pausa. Starkwedder sentou-se no banquinho e fitou-a antes de murmurar:
- Prossiga.
- Ele mudou - disse a senhorita Bennett. - Transformou-se numa... aberrao. Toda a sua personalidade se tornou bastante diferente. s vezes ele podia ser 
um verdadeiro demnio.
- , todo mundo parece estar de acordo quanto a isso - observou Starkwedder.
- Mas se o senhor o tivesse conhecido como ele era... - comeou ela.
Starkwedder a interrompeu.
- No acredito nisso, sabe. No acho que as pessoas mudem.
- Richard mudou - insistiu a senhorita Bennett.
- Oh, no, no mudou - contradisse Starkwedder, retomando a perambulao pela sala. - Aposto que a senhorita v as coisas exatamente pelo lado contrrio. 
Eu diria que, no fundo, ele sempre foi um demnio. Diria que ele foi uma daquelas pessoas que tm de ser felizes e bem-sucedidas... seno! Elas escondem seu verdadeiro 
eu pelo tempo que isso  necessrio para obter o que querem. Mas, por baixo disso, o trao ruim est sempre l. - Voltou-se para encarar a senhorita Bennett. 
- Sua crueldade, aposto, sempre esteve l. Provavelmente, foi um valento na escola. Era atraente para as mulheres, claro. As mulheres sempre se sentem atradas 
pelos valentes. E ele satisfazia um bocado de seu sadismo nestas caadas de grande porte, atrevo-me a dizer. - Indicou os trofus de caa nas paredes. - 
Richard Warwick deve ter sido um monstro de egosmo - continuou ele. -  como ele me parece pela maneira como todos vocs falam dele. Ele gostava de construir 
sua imagem como a de um bom sujeito, generoso, bem-sucedido, amvel, e todo o resto. - Starkwedder ainda estava andando de um lado para o outro numa atitude 
inquieta. - Mas o trao mesquinho estava l, com certeza. E quando veio o acidente, aconteceu apenas que a mscara foi arrancada, e todos vocs o viram como 
ele realmente era.
A senhorita Bennett se levantou.
- No sei o que senhor tem a ver com isso para estar falando assim - exclamou, indignada. - O senhor  um estranho e no sabe de nada a respeito disso.
- Talvez no, mas j ouvi um bocado de coisas sobre o assunto - retorquiu Starkwedder. - Todo mundo parece falar comigo por algum motivo.
- Sim, suponho que falem. , eu mesma estou falando com o senhor agora, no estou? - admitiu ela, enquanto se sentava de novo.
- Isso  porque nenhum de ns aqui se atreve a falar um com o outro. - Ergueu os olhos para ele numa expresso de apelo. - Eu queria que o senhor no estivesse 
indo embora - disse-lhe.
Starkwedder sacudiu a cabea.
- No fiz nada para ajudar de jeito nenhum, na verdade - comentou. - Tudo o que fiz foi tropear aqui dentro e encontrar um cadver para vocs.
- Mas fomos Laura e eu quem descobrimos o corpo de Richard - contraps a senhorita Bennett. Fez uma pausa e de repente acrescentou - Ou foi Laura... o senhor...? 
- Sua voz foi sumindo num silncio.
Captulo 18
Starkwedder olhou para a senhorita Bennett e sorriu. 
- A senhorita  bastante perspicaz, no ? - observou ele. 
A senhorita Bennett olhou fixamente para ele.
- O senhor a ajudou, no foi? - indagou ela, fazendo a pergunta soar como uma acusao.
Ele se afastou dela.
- Agora, a senhorita est imaginando coisas - disse-lhe.
- Ah, no estou, no - retorquiu a senhorita Bennett. - Quero que Laura seja feliz. Ah, eu quero tanto que ela seja feliz!
Starkwedder voltou-se para ela, exclamando com paixo:
- Droga, eu tambm quero!
A senhorita Bennett olhou para ele, surpresa. Em seguida, comeou a falar.
- Nesse caso eu... eu tenho de... - comeou ela, mas foi interrompida.
Fazendo um gesto para que ficasse em silncio, Starkwedder sussurrou:
- S um minuto. - Correu at as portas envidraadas, abriu uma das folhas e gritou - O que  que voc est fazendo?
A senhorita Bennett avistou Jan no gramado, brandindo um revlver. Levantando-se depressa, tambm ela cruzou as portas de vidro e gritou em tom urgente:
- Jan! Jan! D-me essa arma.
Jan, entretanto, foi rpido demais para ela. Fugiu s pressas, rindo e gritando:
- Venha pegar! - repetia enquanto corria desabalado. 
A senhorita Bennett o seguiu, gritando desesperadamente:
- Jan! Jan!
Starkwedder olhou para o jardim, tentando ver o que estava acontecendo. Em seguida, voltou-se e se achava prestes a ir at a porta quando Laura entrou na sala.
- Onde est o inspetor? - perguntou a ele. 
Starkwedder fez um gesto sem qualquer efeito. Laura fechou a porta atrs de si e veio at ele.
- Michael, voc precisa me ouvir - implorou-lhe. - Julian no matou Richard.
-  mesmo? - replicou Starkwedder friamente. - Ele lhe disse isso, foi?
- Voc no me acredita, mas  verdade. - Laura estava desesperada.
- Voc quer dizer que acredita que isso  verdade - salientou Starkwedder para ela.
- No, eu sei que  verdade - replicou Laura. - Veja voc, ele pensava que eu tinha matado Richard.
Starkwedder entrou de novo na sala, afastando-se das portas envidraadas.
- Isso no  exatamente uma surpresa - disse ele com um sorriso cido. - Eu tambm pensei, no foi?
A voz de Laura soou ainda mais desesperada quando insistiu:
- Ele pensou que eu havia atirado em Richard. Mas no conseguiu lidar com isso. Fazia com que se sentisse... - Deteve-se, constrangida, e depois continuou: 
- Isso fazia com que se sentisse diferente em relao a mim.
Starkwedder olhou para ela com frieza.
- Ao passo que - destacou ele - quando voc pensou que de tinha matado Richard, assumiu a culpa sem nem um piscar de olhos! - Subitamente abrandando um 
pouco, sorriu. - As mulheres so maravilhosas! - murmurou. Empoleirou-se no brao do sof. - O que fez Farrar se sair com o fato prejudicial de que ele 
esteve aqui ontem  noite? No me diga que foi uma pura e simples considerao pela verdade.
- Foi Angell - replicou Laura. - Angell viu... ou diz que viu... Julian aqui.
- Sim - observou Starkwedder com um riso um tanto amargo. - Pensei ter sentido um bafo de chantagem. No  exatamente um bom sujeito, esse tal de Angell.
- Ele diz que viu Julian logo depois de... depois de o tiro ter sido disparado - contou-lhe Laura. - Oh, eu estou assustada. Est tudo se fechando sobre ns. 
Estou com tanto medo.
Starkwedder pegou-a pelos ombros.
- No precisa ter medo - afirmou em tom tranquilizador - Vai ficar tudo bem.
Laura sacudiu a cabea.
- No pode ser! - gritou ela.
- Vai ficar tudo bem, estou lhe dizendo - insistiu ele, sacudindo-a com delicadeza.
Laura olhou para ele com expresso indagadora.
- Ser que um dia saberemos quem atirou em Richard? - perguntou.
Starkwedder olhou para ela por um momento sem responder; em seguida, foi at s portas envidraadas e lanou o olhar para o jardim.
- A sua senhorita Bennett - disse ele - parece estai certa de que sabe todas as respostas.
- Ela  sempre positiva - replicou Laura. - Mas algumas vezes est enganada.
Aparentemente entrevendo alguma coisa l fora, Starkwedder de repente acenou para Laura a fim de que a moa se juntasse a ele. Correndo at o outro lado da sala, 
ela pegou sua mo estendida.
- Sim, Laura - exclamou Starkwedder, agitado, ainda olhando para o jardim. - Foi o que eu pensei!
- O que ? - perguntou ela.
- Psiu! - acautelou ele. Quase no mesmo momento, a senhorita Bennett entrou na sala, vindo do saguo.
- Senhor Starkwedder? - chamou ela em tom apressado. - V para a sala ao lado... o inspetor j est l. Depressa!
Starkwedder e Laura atravessaram o gabinete a toda pressa e rumaram para o corredor, fechando a porta atrs de si. Assim que saram, a senhorita Bennett olhou 
para o jardim, onde a luz do dia comeava a cair.
- Agora entre, Jan - chamou. - No me provoque mais. Venha, entre em casa.
Captulo 19
A Senhorita Bennett fez um gesto para Jan e, em seguida, recuou para dentro da sala, postando-se de um dos lados da porta envidraada. Jan de repente surgiu, vindo 
do terrao, com uma aparncia meio rebelada e meio corada de triunfo. Estava carregando uma arma.
- Agora, Jan, me diga, como voc conseguiu se apoderar dessa arma? - perguntou-lhe a senhorita Bennett.
Jan entrou na sala.
- Voc achou que era to esperta, no foi, Benny? - indagou ele em tom francamente beligerante. - Muito esperta, trancando todas as armas do Richard l 
dentro. - Fez um gesto com a cabea na direo do corredor. - Mas eu achei uma chave que abria o armrio das armas. Agora eu tenho uma arma, igualzinho 
ao Richard. Eu vou ter um monte de revlveres e pistolas. Vou atirar nas coisas. - Subitamente, ergueu a arma e apontou-a para a senhorita Bennett, que se encolheu. 
- Tenha cuidado, Benny - prosseguiu ele com uma risada -, eu posso dar um tiro em voc.
A senhorita Bennett tentou no parecer alarmada demais quando disse, no tom mais tranquilizador que conseguiu evocar:
- Ora, voc no faria uma coisa dessas, Jan, tenho certeza de que no faria.
Jan continuou a apontar o revlver para a senhorita Bennett, mas aps alguns momentos o baixou.
A senhorita Bennett relaxou ligeiramente, e, aps uma pausa, Jan exclamou, num tom doce e um tanto ansioso:
- No, eu no faria isso.  claro que no faria.
- Afinal, no  como se voc fosse um rapaz inconsequente - disse-lhe a senhorita Bennett em tom tranquilizador. - Voc agora  um homem, no ?
Jan ficou radiante. Caminhou at a escrivaninha e sentou-se na cadeira.
- Sim, sou um homem - concordou. - Agora que Richard morreu, eu sou o nico homem desta casa.
-  por isso que eu sei que voc no iria atirar em mim - disse a senhorita Bennett. - Voc s atiraria num inimigo.
- Tem razo! - exclamou Jan com deleite.
Como se estivesse escolhendo as palavras com todo cuidado, a senhorita Bennett disse:
- Durante a guerra, se voc estava na Resistncia, quando matava um inimigo, voc marcava um entalhe em sua arma.
-  verdade isso? - respondeu Jan, examinando o revlver. - Eles faziam isso mesmo? - Olhou ansiosamente para a senhorita Bennett. - Algumas pessoas 
tinham uma poro de marcas?
- Tinham - replicou ela -, algumas pessoas tinham uma bela quantidade de marcas.
Jan gargalhou de alegria.
- Que divertido! - exclamou.
-  claro - continuou a senhorita Bennett - que algumas pessoas no gostam de matar... mas outras pessoas gostam.
- Richard gostava - lembrou a ela Jan.
- Sim, Richard gostava de matar coisas - admitiu a senhorita Bennett. Virou-se de costas para ele com naturalidade, enquanto acrescentava: - Voc gosta 
de matar coisas tambm, no gosta Jan?
Sem ser visto por ela, Jan tirou um canivete do bolso e comeou a fazer uma marca na coronha da arma.
-  excitante matar coisas - observou com ligeira petulncia.
A senhorita Bennett voltou-se para encar-lo.
- Voc no queria que Richard o mandasse embora, queria, Jan?
- Ele disse que ia mandar - retorquiu Jan, magoado. - Ele era um animal!
A senhorita Bennett caminhou em volta da cadeira da escrivaninha na qual Jan ainda estava sentado.
- Voc disse a Richard uma vez - ela o fez lembrar - que o mataria se ele o mandasse embora. 
- Eu disse? - respondeu Jan. Soava indiferente, como que falando sem pensar.
- Mas voc no o matou? - perguntou a senhorita Bennett, sua entonao transformando as palavras apenas numa meia pergunta.
- Oh, no, eu no o matei. - Mais uma vez Jan soava despreocupado.
- Isso foi uma grande fraqueza de sua parte - observou a senhorita Bennett.
Havia uma expresso matreira nos olhos de Jan quando ele retrucou:
- Foi?
- Sim, eu acho. Dizer que ia mat-lo, e depois no fazer isso. - A senhorita Bennett andava em torno da escrivaninha, mas olhava na direo da porta. - 
Se algum estivesse tentando me trancar num hospital, eu ia querer mat-lo, e faria isso mesmo.
- Quem disse que foi alguma outra pessoa que fez isso? - retorquiu Jan depressa. - Talvez tenha sido eu.
- Ah, no, no poderia ser voc - disse a senhorita Bennett em tom de rejeio. - Voc  apenas um menino. Voc no se atreveria.
Jan deu um pulo e afastou-se dela.
- Voc acha que eu no teria coragem? - Sua voz era quase um ganido. -  isso que voc acha?
- Claro que  isso que eu acho. - Ela agora parecia estar deliberadamente escarnecendo dele. - Claro que voc no se atreveria a matar Richard. Teria de 
ser muito corajoso e adulto para fazer isso.
Jan deu-lhe as costas e afastou-se.
- Voc no sabe de nada, Benny - disse ele, magoado. - Ah, no, velha Benny. Voc no sabe de nada.
- H alguma coisa que eu no saiba? - perguntou a senhorita Bennett. - Voc est rindo de mim, Jan? - Aproveitando a oportunidade, ela abriu uma fresta 
da porta. Jan achava-se de p junto s portas envidraadas, de onde um facho de luz do sol poente brilhava cruzando a sala.
- Sim, sim, estou rindo - gritou Jan de repente para ela. - Estou rindo porque sou muito mais esperto que voc.
Voltou para dentro da sala. A senhorita Bennett teve um sobressalto involuntrio e agarrou a moldura da porta. Jan deu um passo em direo a ela.
- Eu sei coisas que voc no sabe - acrescentou Jan, falando em tom mais sbrio.
- O que voc sabe que eu no sei? - perguntou a senhorita Bennett. Tentou no parecer ansiosa demais.
Jan no deu nenhuma resposta, mas simplesmente sorriu com ar misterioso. A senhorita Bennett se aproximou dele.
- No vai me contar? - perguntou ela, usando de persuaso. - No vai me confiar seu segredo?
Jan afastou-se dela.
- Eu no confio em ningum - respondeu ele com amargura. 
A senhorita Bennett mudou seu tom para uma expresso de perplexidade.
- Agora eu fico pensando - murmurou ela. - Imaginando que talvez voc tenha sido muito esperto.
Jan deu umas risadinhas.
- Voc est comeando a ver o quanto eu posso ser esperto - disse-lhe.
A governanta o observou, parecendo analis-lo.
- Talvez haja uma poro de coisas que eu no sei - concordou.
- Ah, montes e montes - garantiu-lhe Jan. - E eu sei um monte de coisas sobre todas as outras pessoas, mas nem sempre conto. Eu me levanto s vezes durante 
a noite e me esgueiro pela casa. Vejo uma poro de coisas e descubro uma poro de coisas, mas no conto.
Adotando um ar conspiratrio, a senhorita Bennett perguntou:
- Voc tem algum grande segredo agora?
Jan passou uma perna por cima do banquinho, sentando-se nele como se estivesse numa sela.
- Grande segredo! Grande segredo! - guinchou ele, deliciado. - Voc ficaria apavorada se soubesse - acrescentou, rindo de maneira quase histrica.
A senhorita Bennett chegou mais perto dele.
- Ficaria? Eu ficaria apavorada? - perguntou ela. - Eu ficaria com medo de voc, Jan? - Postando-se bem diante de Jan, olhou intensamente para ele.
Jan ergueu os olhos para ela. A expresso de satisfao deixou o seu rosto, e sua voz estava bem sria quando ele replicou:
- Sim, voc ficaria com muito medo de mim. 
Ela continuou a fit-lo bem de perto.
- Nunca soube como voc realmente era - admitiu ela. - Estou apenas comeando a compreender como voc , Jan.
As alteraes de humor de Jan estavam ficando mais pronunciadas. Soando cada vez mais rebelde, ele exclamou:
- Ningum sabe realmente nada sobre mim, ou sobre as coisas que eu posso fazer. - Girou no banquinho e sentou-se de costas para ela. - Aquele bobo do Richard, 
sentado ali e atirando naqueles pssaros idiotas. - Voltou-se para a senhorita Bennett, acrescentando em tom intenso: - Ele no achava que algum fosse 
atirar nele, achava?
- No - replicou ela. - No, e esse foi o seu erro. 
Jan se levantou.
- Sim, esse foi o seu erro - concordou. - Ele achou que podia me mandar embora, no ? Eu mostrei a ele.
Jan olhou para ela com ar manhoso. Fez uma pausa e finalmente disse:
- No vou lhe contar.
- Oh, por favor, me conte, Jan - implorou ela.
- No - retorquiu, afastando-se dela. Foi at a poltrona e subiu nela, aninhando a arma contra o rosto. - No, eu no vou contar a ningum.
A senhorita Bennett foi at ele.
- Talvez voc tenha razo - disse-lhe. - Talvez eu possa adivinhar o que voc fez, mas no vou dizer. Ser apenas o seu segredo, no ?
- Sim,  o meu segredo - replicou Jan. Ele comeou a se movimentar irrequieto pela sala. - Ningum sabe como eu sou - exclamou com excitao. - Eu 
sou perigoso. E melhor eles tomarem cuidado. Todo mundo tem de tomar cuidado. Eu sou perigoso.
A senhorita Bennett olhou para ele com tristeza.
- Richard no sabia o quanto voc era perigoso - disse ela. - Deve ter ficado surpreso.
Jan voltou  poltrona e olhou para o assento.
- Ele ficou. Ficou surpreso - concordou. - Sua cara ficou boba. E ento... e ento sua cabea caiu quando a coisa estava feita, e havia sangue, e ele no 
se mexeu mais. Eu mostrei a ele. Mostrei a ele! Richard no vai me mandar embora agora!
Empoleirou-se no sof, acenando com a arma para a senhorita Bennett, que estava tentando conter as lgrimas.
- Olhe - ordenou-lhe Jan. - Est vendo? Eu marquei um dente na minha arma! - Tocou o revlver com seu canivete.
- Ento voc marcou! - exclamou a senhorita Bennett, aproximando-se dele. - Isso no  excitante? - A governanta tentou agarrar a arma, mas o rapaz 
foi rpido demais para ela.
- Ah, no, voc no vai me pegar - gritava ele, enquanto se esquivava dela numa espcie de dana. - Ningum vai tirar minha arma de mim. Se a polcia 
vier e tentar me prender, eu atiro neles.
- No  preciso fazer isso - garantiu-lhe a senhorita Bennett. - Nenhuma necessidade, de jeito algum. Voc  esperto. To esperto que eles nunca iriam 
suspeitar de voc.
- Polcia boba! Polcia boba! - clamou Jan em jbilo. - E Richard bobo! - Brandiu o revlver para um Richard imaginrio, e depois avistou a porta se 
abrindo. Com um grito de alarme, fugiu depressa para o jardim. A senhorita Bennett desabou em lgrimas no sof, enquanto o inspetor Thomas entrava correndo na 
sala, seguido pelo sargento Cadwallader.
Captulo 20
-Atrs dele! Depressa! - gritou o inspetor para Cadwallader enquanto entravam correndo na sala. O sargento disparou para o terrao atravs das portas envidraadas, 
no momento em que Starkwedder chegava  sala, apressado, vindo do corredor. Foi seguido por Laura, que correu at as portas de vidro e olhou para fora. Angell 
foi o prximo a aparecer. Tambm ele saiu pelas portas da varanda. A senhora Warwick manteve-se de p, uma figura ereta, no umbral.
O inspetor Thomas voltou-se para a senhorita Bennett.
- Calma, calma, minha cara - confortou-a. - No deve encarar as coisas assim. A senhorita fez muito bem.
Numa voz entrecortada, a senhorita Bennett replicou.
- Eu sabia o tempo todo - contou ao inspetor. - Veja o senhor, eu conheo o modo de ser do Jan melhor do que qualquer outra pessoa. Sabia que Richard o estava 
pressionando demais, e sabia... j vinha sabendo h algum tempo... que Jan estava ficando perigoso.
- Jan! - exclamou Laura. Com um suspiro de profunda tristeza, ela murmurou: - Oh, no, Jan no, no. - Afundou na cadeira da escrivaninha. - No 
consigo acreditar - prosseguiu, ofegante.
A senhora Warwick fuzilou com os olhos a senhorita Bennett.
- Como pde fazer isso, Benny? - perguntou ela em tom acusador. - Como pde? Eu achava que pelo menos voc seria leal.
A resposta da senhorita Bennett foi desafiadora.
- H ocasies - replicou ela para a velha dama - em que a verdade  mais importante do que a lealdade. Vocs no viram... nenhum de vocs... que Jan 
estava se tornando perigoso. Ele  um menino adorvel... um doce rapaz... mas... - Vencida pelo pesar, ela no conseguiu continuar.
A senhora Warwick se encaminhou lenta e tristemente para a poltrona e sentou-se, fitando o espao.
Falando com calma, o inspetor completou o pensamento da senhorita Bennett.
- Mas quando eles passam de uma certa idade, ficam perigosos, porque no compreendem mais o que esto fazendo - observou. - No tm o juzo ou o controle 
de um homem. - Foi at a senhora Warwick. - A senhora no deve se afligir, madame. Acho que posso assumir a responsabilidade pessoal de dizer que ele ser 
tratado com toda humanidade e considerao. H uma clara argumentao para a defesa, acredito, no sentido de que ele no  responsvel por seus atos. Isso 
significar a deteno num ambiente confortvel. E isso, a senhora sabe,  o que viria a acontecer em breve, de qualquer maneira. - Voltou-se e atravessou 
a sala, fechando a porta do vestbulo quando passou.
- Sim, sim, eu sei que voc tem razo - admitiu a senhora Warwick. Voltando-se para a senhorita Bennett, disse: - Desculpe, Benny. Voc disse que ningum 
mais sabia que ele era perigoso. Isso no  verdade. Eu sabia... mas no consegui me forar a fazer nada a esse respeito.
- Algum tinha de fazer alguma coisa! - replicou Benny com firmeza. A sala caiu em silncio, mas a tenso subia enquanto todos aguardavam pelo retorno do 
sargento Cadwallader com Jan preso.
Junto  estrada, a vrias centenas de metros da casa, com uma neblina comeando a se fechar, o sargento mantinha Jan acuado contra um muro alto. Jan brandia a 
arma, berrando.
- No chegue mais perto. Ningum vai me trancar em lugar nenhum. Eu atiro em voc. Estou falando srio. No tenho medo de ningum!
O sargento parou a uns bons cinqenta metros.
- Agora, vamos, garoto - chamou, tentando persuadi-lo.  - Ningum vai machucar voc. Mas armas so coisas perigosas. Basta que me d isso e volte para 
a casa comigo. Voc pode conversar com sua famlia, e eles vo ajud-lo.
Avanou alguns passos em direo a Jan, mas deteve-se quando o rapaz gritou, histrico:
- Estou falando srio. Vou atirar em voc. No dou a mnima para policiais. No tenho medo de vocs.
-  claro que no - replicou o sargento. - Voc no tem motivo para sentir medo de mim. Eu no machucaria voc. Mas volte para casa comigo. Vamos, agora. 
- Deu um passo  frente outra vez, mas Jan fez um movimento brusco com a arma e disparou dois tiros em rpida sucesso. O primeiro errou o alvo, mas o segundo 
atingiu Cadwallader na mo esquerda. Ele deu um grito de dor, mas correu at Jan, derrubando-o no cho para tentar tirar o revlver do rapaz. Enquanto lutavam, 
a arma subitamente disparou mais uma  vez. Jan emitiu um rpido engasgo e caiu em silncio.
Horrorizado, o sargento ajoelhou-se sobre ele, fitando-o com incredulidade.
- No, oh, no - murmurou. - Pobre menino tolo. No! Voc no pode estar morto. Oh, por favor, meu Deus... - Verificou o pulso de Jan, e depois sacudiu 
a cabea lentamente. Erguendo-se, recuou devagar por alguns passos, e s ento percebeu que sua mo sangrava em profuso. Enrolando um leno em torno dela, 
correu de volta  casa, segurando o brao esquerdo no ar e arfando de dor.
Quando chegou s janelas envidraadas, estava cambaleando.
- Senhor! - chamou, enquanto o inspetor e os demais corriam para a varanda.
- Que diabos aconteceu? - perguntou o inspetor. 
Com o flego vindo com dificuldade, o sargento replicou:
-  terrvel o que eu tenho para lhes contar. 
Starkwedder ajudou-o a entrar na sala, e o sargento cambaleou at o banquinho, desabando sobre ele. 
O inspetor foi depressa para o seu lado.
- Sua mo! - exclamou.
- Vou cuidar disso - murmurou Starkwedder. Erguendo o brao do sargento Cadwallader, jogou fora o pedao de pano agora totalmente encharcado de sangue, tirou 
um leno de seu prprio bolso e comeou a amarr-lo em volta da mo do sargento.
- A neblina est se aproximando, veja - comeou Cadwallader a explicar. - Ficou difcil enxergar com clareza. Ele atirou em mim. L adiante, junto  estrada, 
perto da beira daquele pequeno bosque.
Com uma expresso de horror no rosto, Laura se levantou e foi at a porta de vidro.
- Ele atirou em mim duas vezes - o sargento estava dizendo - e na segunda conseguiu acertar minha mo.
A senhorita Bennett se levantou de repente, levando a mo  boca.
- Tentei tirar a arma dele - continuou o sargento -, mas a minha mo me atrapalhou, o senhor est vendo...
- Sim. O que aconteceu? - apressou-o o inspetor.
- Seu dedo estava no gatilho - respondeu o sargento ofegante - e ele disparou. O tiro atravessou o corao. Ele est morto.
Captulo 21
A comunicao do sargento Cadwallader foi recebida com um silncio estupefato. Laura ps a mo sobre a boca a fim de sufocar um grito, em seguida moveu-se lentamente 
de volta  cadeira da escrivaninha, onde se sentou, fitando o cho. A senhora Warwick baixou a cabea e se apoiou na bengala. Starkwedder ficou andando de um 
lado para o outro da sala, parecendo distrado.
- Tem certeza de que ele est morto? - perguntou o inspetor.
- Tenho, de fato - replicou o sargento. - Pobre jovem, gritando desafios contra mim, disparando aquele seu revlver como se adorasse o som dos tiros.
O inspetor atravessou as portas envidraadas.
- Onde est ele?
- Irei com o senhor e lhe mostrarei - respondeu o sargento, esforando-se para se levantar.
- No,  melhor que fique aqui.
- Estou bem agora - insistiu o sargento. - Vai ficar tudo certo at que voltemos  delegacia. - Caminhou at o terrao, oscilando ligeiramente. Olhando 
de volta para os demais, o rosto coberto de tristeza, murmurou com ar distrado - “No se deveria, com certeza, temer quem est morto.”  de Pope. Alexander 
Pope. - Meneou a cabea e se afastou, devagar.
O inspetor virou-se para encarar a senhora Warwick e os demais.
- Sinto muito, mais do que sou capaz de expressar, mas talvez esta tenha sido a melhor sada - disse ele, acompanhando em seguida o sargento em direo ao 
jardim.
A senhora Warwick observou-o ir embora.
- A melhor sada! - exclamou, meio zangada, meio desesperada.
- Sim, sim - suspirou a senhorita Bennett. - Foi o melhor. Ele est fora disso agora, pobre rapaz. - Encaminhou-se para ajudar a senhora Warwick a se levantar. 
- Venha, minha querida, venha, isso tudo foi demais para a senhora.
A velha dama olhou para ela com expresso vaga.
- Eu... eu vou me deitar - murmurou, enquanto a senhorita Bennett a conduzia at a porta. Starkwedder abriu-a para elas, em seguida tirou um envelope do bolso, 
estendendo-o  senhora Warwick. - Acho que  melhor ficar com isso de volta - sugeriu.
Ela se virou no umbral e pegou o envelope da mo dele.
-  - replicou. - No h nenhuma necessidade disso agora.
A senhora Warwick e a senhorita Bennett saram da sala. Starkwedder achava-se prestes a fechar a porta atrs delas quando se deu conta de que Angell estava se 
dirigindo at Laura, a qual ainda se encontrava sentada  escrivaninha. Ela no se moveu com a aproximao do criado.
- Permita que lhe diga, madame - abordou-a Angell -, o quanto lamento. Se houver alguma coisa que eu possa fazer, basta que a senhora...
Sem erguer os olhos, Laura o interrompeu:
- No iremos mais precisar dos seus servios, Angell - disse-lhe ela com frieza. - Voc receber um cheque por seus vencimentos, e eu gostaria que estivesse 
fora desta casa hoje mesmo.
- Sim, madame. Obrigado, madame - replicou Angell, aparentemente sem ressentimentos; em seguida, voltou-se e saiu da sala. Starkwedder fechou a porta atrs 
dele. A sala agora estava ficando escura, os ltimos raios de sol lanando sombras sobre as paredes.
Starkwedder olhou para Laura do outro lado do gabinete.
- Voc no vai process-lo por chantagem? - perguntou.
- No - replicou Laura, em tom aptico.
- Uma pena. - Caminhou at ela. - Bem, suponho que seja melhor eu ir andando. Vou dizer adeus. - Fez uma pausa. Laura ainda no tinha olhado para ele. 
- No fique to aflita - acrescentou.
- Eu estou aflita - respondeu Laura cheia de sentimento.
- Porque voc amava o menino? - perguntou Starkwedder. 
Laura voltou-se para ele.
- Sim. E porque  minha culpa. Entenda, Richard estava certo. O pobre Jan deveria ter sido mandado para algum lugar. Ele deveria ter sido isolado onde no pudesse 
causar nenhum mal. Fui eu quem no admitiu isso. Ento, na verdade,  por minha culpa que Richard hoje est morto.
- Ora, vamos, Laura, no seja sentimental - retorquiu Starkwedder com aspereza. Chegou mais perto dela. - Richard foi morto porque estava pedindo por 
isso. Ele podia ter demonstrado uma certa bondade para com o rapaz, no podia? No se lamente. O que voc tem de fazer agora  ser feliz. Feliz para sempre, 
como dizem nas histrias.
- Feliz? Com Julian? - respondeu Laura com amargura na voz. - Imagine! - Franziu o cenho. - Entenda, no  mais a mesma coisa agora.
- Est querendo dizer, entre Farrar e voc? - perguntou ele.
- . Veja voc, quando eu pensei que Julian havia matado Richard, isso no fez nenhuma diferena para mim. Continuei a am-lo do mesmo modo. - Laura fez 
uma pausa e prosseguiu: - Estava at disposta a dizer que eu mesma tinha feito aquilo.
- Eu sei que voc estava - disse Starkwedder. - Mais boba ainda. Como as mulheres gostam de se fazer de mrtires!
- Mas quando Julian pensou que eu tinha feito aquilo - prosseguiu Laura em tom apaixonado -, ele mudou. Mudou completamente em relao a mim. Ah, ele estava 
disposto a ter a decncia de no me incriminar. Mas s isso. - Apoiou o queixo na mo, desanimada. - Ele no sentia mais a mesma coisa. 
Starkwedder sacudiu a cabea.
- Olhe aqui, Laura - ele exclamou -, homens e mulheres no reagem da mesma maneira. O que se resume ao seguinte: os homens so o sexo realmente sensvel. 
As mulheres so resistentes. Os homens no conseguem lidar com o crime em suas vidas. As mulheres, aparentemente, sim. O fato  que, se um homem comete um crime 
por uma mulher, isso provavelmente acentua o seu valor aos olhos dela. Um homem se sente de maneira diferente.
Ela ergueu os olhos para ele.
- Voc no se sentiu dessa maneira - observou ela. - Quando achou que eu tinha atirado em Richard, voc me ajudou.
- Isso foi diferente - retrucou Starkwedder, depressa. Parecia ligeiramente surpreso. - Eu tinha de ajud-la.
- Por que voc tinha de me ajudar? - quis saber Laura. 
Starkwedder no respondeu de maneira direta. Ento, depois de uma pausa, disse calmamente:
- Eu ainda quero ajudar voc.
- No est vendo - disse Laura, virando as costas para ele - que estamos de volta ao lugar onde comeamos? De certa maneira, fui eu quem matou Richard porque... 
porque estava sendo to teimosa com relao a Jan.
Starkwedder puxou o banquinho e sentou-se ao lado dela.
- Isso na verdade  o que a est consumindo, no ? - declarou ele. - Descobrir que foi Jan quem atirou em Richard. Mas isso no precisa ser verdade, 
sabia? No precisa pensar desta forma, a menos que queira.
Laura fitou-o intensamente.
- Como pode dizer uma coisa dessas? - perguntou ela. - Eu ouvi... ns todos ouvimos... ele confessou... ele se gabou disso.
- Oh, sim - admitiu Starkwedder. - Sim, eu sei disso. Mas o quanto ns sabemos sobre o poder da sugesto? A senhorita Bennett conduziu Jan com muito jeito, 
deixou-o todo enredado. E o garoto com certeza era sugestionvel. Gostava da idia, como acontece com muitos adolescentes, de ver as pessoas achando que ele tinha 
poder, que... sim, que era capaz de ser um assassino, se preferir pr nestes termos. A Benny balanou a isca na frente dele, e o garoto a pegou. Ele tinha atirado 
em Richard, fez uma marca em sua arma, e era um heri! - Deteve-se. - Mas voc no sabe... nenhum de ns realmente sabe... se o que ele disse era verdade.
- Mas, pelo amor de Deus, ele atirou no sargento! - protestou Laura.
- Ah, sim, ele era, com certeza, um assassino potencial! - acedeu Starkwedder. -  bem provvel que ele tenha atirado em Richard. Mas voc no pode dizer 
com certeza que ele o fez. Pode ter sido... - Ele hesitou. - Poderia ter sido uma outra pessoa.
Laura olhou para ele com expresso descrente.
- Mas quem? - perguntou, incrdula. 
Starkwedder pensou por um momento. E ento se decidiu:
- A senhorita Bennett, talvez - sugeriu. - Afinal de contas, ela gosta muito de todos vocs, e pode ter achado que isso era para o melhor. Ou, do mesmo modo, 
a senhora Warwick. Ou at seu namorado Julian... depois fingindo achar que tinha sido voc. Uma jogada esperta que envolveu voc completamente.
Laura desviou o olhar.
- Voc no acredita no que est dizendo - acusou-o. - Est apenas tentando me consolar.
Starkwedder pareceu completamente exasperado.
- Minha querida - argumentou -, qualquer um poderia ter atirado em Richard. At MacGregor.
- MacGregor? - perguntou ela, olhando fixo para ele. - Mas MacGregor est morto.
-  claro que ele est morto - replicou Starkwedder. - Tinha de estar. - Levantou-se e foi at o sof. - Olhe aqui - continuou -, eu posso montar 
uma excelente argumentao demonstrando que MacGregor foi o assassino. Dizer que ele decidiu matar Richard como vingana pelo acidente no qual seu garotinho foi 
morto. - Sentou-se no brao do sof. - O que  que ele faz? Bem, a primeira coisa  que ele tem de se livrar de sua prpria personalidade. No seria 
difcil arranjar para que fosse dado como morto em algum lugar remoto do Alasca. Custaria algum dinheiro e um ou outro falso testemunho, mas estas coisas podem 
ser conseguidas. Depois ele muda de nome e comea a construir uma nova personalidade para si mesmo em algum outro pas, num outro emprego.
Laura fitou-o por um momento e depois saiu da escrivaninha para se sentar na poltrona. Fechando os olhos, respirou fundo. Em seguida abriu-os, olhando para ele de 
novo.
Starkwedder continuou com sua narrativa de especulao.
- Ele no perde de vista o que anda acontecendo por aqui, e quando fica sabendo que vocs saram de Norfolk e vieram para esta parte do mundo, faz seus planos. 
Raspa a barba, tinge o cabelo, todo esse tipo de coisa,  claro. Ento, numa noite de neblina, vem at aqui. Agora, digamos que tenha se passado assim. - Foi 
at as portas de vidro e ficou de p junto a elas. - Digamos que MacGregor provoque Richard: “Eu tenho uma arma e voc tambm. Eu conto at trs e ns 
dois atiramos. Vim para pegar voc pela morte do meu menino.”
Laura olhou para ele estarrecida.
- Voc sabe - prosseguiu Starkwedder -, no acho que seu marido fosse aquele excelente esportista que voc pensava. Fao idia de que ele poderia no 
ter esperado a contagem at trs. Voc afirma que ele era um exmio atirador, danado de bom, mas desta vez ele errou, e a bala se desviou por aqui - fez 
um gesto enquanto saa para o terrao -, indo parar no jardim, onde existem muitas outras balas. Mas MacGregor no erra. Ele atira e mata. - Starkwedder voltou 
para dentro da sala. - Ele deixa cair o revlver junto ao corpo, pega a arma de Richard, sai pela porta de vidro, e dentro em pouco retorna.
- Retorna? - indagou Laura. - Por que ele retorna? 
Starkwedder olhou para ela por alguns segundos sem falar. Depois, tomando flego, perguntou.
- No consegue adivinhar?
Laura fitou-o com ar admirado. Sacudiu a cabea:
- No, no tenho nenhuma idia - replicou ela.
Ele continuou a olh-la com firmeza. Aps uma pausa, falou devagar e com um certo esforo.
- Bem - disse ele -, suponha que MacGregor tenha um acidente com seu carro e no consiga sair daqui. O que mais ele pode fazer? Apenas uma coisa... vir at 
a casa e descobrir o corpo!
- Voc fala... - disse Laura com voz entrecortada - voc fala como se soubesse exatamente o que aconteceu.
Starkwedder no conseguiu mais se conter.
-  claro que eu sei - deixou escapar em tom arrebatado. - Ser que no entende? Eu sou MacGregor! - Recostou-se contra as cortinas, sacudindo a cabea 
desesperadamente.
Laura se levantou, uma expresso incrdula no rosto. Deu alguns passos em direo a ele, meio que erguendo o brao, incapaz de apreender o pleno sentido das 
palavras daquele homem.
- Voc... - murmurou ela... - Voc... 
Starkwedder caminhou lentamente em direo a Laura.
- Nunca pretendi que isto acontecesse - disse-lhe, a voz rouca de emoo. - Quero dizer... encontrar voc, e descobrir que eu me interessava por voc, 
e que... Oh, Deus, no h esperana.  irrealizvel. - Enquanto ela o olhava fixamente, aturdida, Starkwedder pegou sua mo e beijou-lhe a palma. - Adeus, 
Laura - disse ele, ainda rouco.
Saiu depressa pelas portas envidraadas e desapareceu na neblina. Laura correu para o terrao e chamou por ele:
- Espere... espere. Volte!
A nvoa redemoinhou e a sirene de neblina de Bristol comeou a soar.
- Volte, Michael, volte! - gritou Laura. No houve resposta. - Por favor, volte! Eu tambm gosto de voc.
Ficou ouvindo com toda ateno, mas escutou apenas o som de um carro dando partida no motor e se afastando. A sirene de neblina continuava a tocar enquanto ela 
ia escorregando contra a porta de vidro e irrompia num incontrolvel acesso de soluos.
A Sociedade Agatha Christie

Devido s muitas e variadas solicitaes por parte dos leais fs de Agatha Christie, decidiu-se pela criao de uma Sociedade Agatha Christie a fim de abrir 
canais de comunicao entre aqueles fs e as diversas mdias que no mediram esforos para trazer suas obras, em todas as suas vrias formas, at o pblico.
Se voc deseja se candidatar  filiao na Sociedade, por favor escreva para:
The Agatha Christie Society
PO Box 2749
London W1A 5DS

http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource






Este livro foi composto na tipologia Lapidary
em corpo 12/15 e impresso em papel
Offset 90g/m2, no Sistema Cameron da Diviso
Grfica da Distribuidora Record.







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